"As casas também têm vida. É uma vida de trabalho"

Alguns habitantes regressaram às suas casas, outras nunca de lá saíram apesar da ordem de evacuação. Esconderam-se e permaneceram junto aos seus bens, com a justificação que conhecem bem o terreno e sabem lidar com os ventos. Há aldeias que permanecem silenciosas.

Evacuados domingo à noite porque o fogo estava demasiado próximo de casas, alguns regressaram ontem pensando que estariam seguros. Mas há chamas que voltam, tudo se complica para a tarde. Descobre-se, depois, que houve quem se escondesse para não sair e proteger "os pertences" e os animais. Justificam que conhecem o terreno e os ventos; que não estavam em perigo. Entretanto, equipas multidisciplinares percorrem os lugares, averiguam as necessidades da população, fornecem água, chamam os bombeiros onde vêm fogos, informam a PJ se encontram corpos.

Derreadas Cimeira, em Pedrógão Grande, foi uma das aldeias evacuadas no domingo, muitos para o lar da Misericórdia. Manuela Mendes, 55 anos protesta: "Eles ajudam mas não podem bater. Bateram no meu marido, caíram os óculos e tudo, não podem fazer isso."

Os protestos recordam-nos o caso do homem que subiu para cima da casa. Foi o seu marido que fugiu para o telhado? "Era o telhado da churrasqueira", sublinha a mulher. Explica: "O meu marido disse: "O fogo nem daqui a três horas está aqui. Nós conhecemos o terreno"".

Paula Nunes, 46 anos, vizinha, corrobora. "Queriam que saíssemos às 16.00, então é que isto ardia tudo. Estiveram aqui dois carros de bombeiros, depois não vieram mais. Nós é que temos andado a apagar os fogos que vão ateando".

Como é que se consegue convencer alguém que corre perigo, que as vidas são mais importantes do que os bens? "As casas também têm vida. É uma vida de trabalho". Paula fala e a filha, Jéssica David, 20 anos, concorda com o olhar. Desde sábado que estão vigilantes a tudo o que arde em redor. Na primeira noite, juntaram-se vizinhos e famílias à beira da estrada, agora fazem turnos para descansar alguma coisa.

"À noite podemos ter menos meios mas é mais fácil ver os fogos. Conseguimos apagar as chamas e fizemos sempre isso, também durante o dia. Só às três da manhã é que o fogo esteve mais perto. E porquê? Porque não estavam cá todos para proteger". Sandra Martins, 33 anos, ficou, com o pai, Manuel, 65. "Fui levar os animais à minha tia, que mora em Pedrógão Grande, e voltei. Ficámos toda a noite de plantão. Ainda apagámos fogos". Enquanto as cabras e os patos estavam a salvo.

Continuam a apagar pequenos incêndios, fagulhas que o vento faz atear a largos metros de distância. Duas famílias de feirantes que habitam vivendas à saída de Derreada Cimeira, no lado norte do concelho de Pedrógão Norte. Ajudam dois operacionais do INEM, integrados numa equipa multidisciplinar, com elementos da GNR, da Segurança Social e da Proteção Civil. "Fazemos o levantamento das necessidades que encontramos no local, damos apoio, temos um psicólogo, informamos o comando operacional se é necessário outro tipo de ajuda." Explica quem prefere falar em nome coletivo. Chegam, entretanto, bombeiros, que a equipa achou por bem chamar.

Partem para nova localidade. São operacionais de Lisboa, desconhecem os terrenos por onde circulam, alguns sítios nem o motorista da Câmara Municipal de Pedrógão Grande sabe. Também os bombeiros vieram da capital.

Carteiro para mostrar caminho

Há equipas de todos os pontos do país, com a mesma dificuldade em encontrar os lugares. As zonas são muito parecidas, vales e serras queimados, mas ainda com verde de quando em vez. É muito fácil perder-se. O medo é se, de repente, estamos numa zona em chamas, ou se cai uma árvore na estrada.

A esperança está nos carteiros, facto aliás referido pelas autoridades nacionais que se encontram no Centro de Operações, desde ontem em Avelar, concelho de Ansião. "Melhor do que ninguém conhecem os locais e quem lá vive."

Jorge Tomás, 54 anos, carteiro há 30, confirma. Faz o norte de Pedrógão Grande. "Há um mês, depois vem outro, agora é assim. Sabemos quais as casas que estão habitadas". Também há muitas de ocupação temporária, habitantes que migraram para Lisboa ou para o estrangeiro. Não encontrou casos graves, acredita que as chamas pouparam a zona. Está preocupado em entregar o correio, em acabar a volta, promete levar os operacionais até um cruzamento, depois dará as indicações para o resto do percurso.

O DN parte com a equipa multidisciplinar das três que percorrem as zonas sinistradas. Em cada localidade homens com muitos anos, camisa aberta ou mesmo de tronco nu, regam em volta de casa, vigiam o fogo, com as mulheres, Quase sempre idosos, um ou outro habitante mais novo, um ou outro familiar que veio ajudar.

Nova paragem em Regadas, encontro com bombeiros e os GIPS (Companhia de Intervenção, Proteção e Socorro da GNR). Estes últimos deixaram o Algarve no sábado, roupas especiais, proteção na cara. Há um incêndio, chamas não muito altas, o melhor é deixar queimar com controle. Assim, não há o perigo de reacender. A técnica da Proteção Civil não ouve a explicação, pergunta se não têm água. Acabam por utilizar água no rescaldo. É hora para uma refeição quente ingerida à pressa, 16 embalagens, Trabalham uns enquanto os outros comem, trocam depois.

Em Vergeira, Francisco Ferreira, 71 anos, mora com a esposa, o filho veio ajudar. "Foi a Pedrógão Grande comprar um gerador. Não há luz, nem água, tenho um poço com um motor e assim posso tirar água, Não podemos sossegar."

A equipa multidisciplinar prefere continuar, comerá depois. Em Fontes, novamente rotos com muitas rugas, gente que vive só. "Não têm água, nem luz, não conseguem comunicar com a família, demos água, há uma senhora a precisar de cuidados médicos", conta o guarda principal Viva, da GNR.

Trazem uma ambulância do INEM, o que faz sobressaltar quem passa. "Quem é? Está muito mal?". O médico de saúde pública, Henriques Mendes, tranquiliza;"Não é nada de grave, nós é que trazemos a ambulância por precaução." E para o DN. "As pessoas assustam-se por verem a ambulância". escreve numa folha os nomes das pessoas que encontram e a sua situação. Conhece a região como clínico, ofereceu-se para ajudar onde fosse preciso. Tratam a dona Silvina, também muito preocupada com a marca que uma carraça deixou na testa.

Tem uma vizinha inglesa, que confessa não perceber muito bem e não é só por não falarem a mesma língua. Uma enfermeira reformada, 59 anos, que prefere não ver o nome nos jornais. A inglesa pede água, não tem saldo no telemóvel, nem luz. Perguntamos-lhe porque ali veio parar, há quatro anos. Mostra a paisagem da janela, que já foi muito mais verde. Conta uma história. "Sempre gostei de cabras, quis comprar uma em pequena mas os pais nunca deixaram. Agora vivo rodeada de cabras." Admira, também, a calma de Fontes, onde comprou uma casinha, com sala e kitchenette, dois quartos, por 55 mil euros, pela Internet e com a ajuda de amigos.

A equipa segue para Pedrógão Grande. O DN passa por outras aldeias evacuadas, agora do concelho de Castanheira de Pera: Bolo, Pera, Vilar, Sapateira, Torgal, estão despidas de gente. "Ficámos dois ou três casais, a guardar a casa, felizmente o vento mudou o sentido do fogo, as chamas não pararam, continuaram por baixo". Explica Gregório Pires, 78 anos, dos quais 30 emigrados em França. Nem a filha, que ali passava os feriados os demoveu. Queria levá-los para Lisboa, onde vive. Gregório assegura que teria saído se sentisse perigo. "Vi que não tinha razão para abandonar a casa, o fogo chegou ali acima, a Mirante, e virou," Mora em Pera, aldeia que já foi maior que a sede do concelho, Castanheira de Pera, e que teve 700 habitantes. Hoje são 80, "praticamente todos com mos de 70". A mesma aldeia da ex-professora Mavilde e que domingo tanto chamou pelo marido, o Amadeu. A família está bem, como as casas. De pé.

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