Alergia ao wi-fi, problemas de visão, tromboses: as novas doenças tecnológicas

A hipersensibilidade eletromagnética, ou alergia à wireless, levou a que uma francesa se isolasse numa região sem eletricidade. O tribunal atribuiu-lhe um subsídio de 800 euros por mês.

O que faria se de repente começasse a ter alergia ao wi-fi? Ou ao telemóvel, ao tablet e ao contador inteligente? Talvez o mesmo que Marine Richard, uma francesa de 39 anos que na semana passada ganhou um processo em tribunal por ser "alérgica" à radiação eletromagnética de vários gadgets. O juiz concluiu que ela tem direito a um subsídio de 800 euros por mês durante os próximos três anos devido a esta condição, embora a Organização Mundial da Saúde (OMS) não seja clara quanto à mesma.

O que aconteceu a Richard foi uma sucessão de sintomas associados à condição de hipersensibilidade eletromagnética ou eletrosensibilidade: dores de cabeça severas, fatiga, náuseas e palpitações constantes. A francesa acabou por se mudar para um celeiro remodelado numa região montanhosa do Sudoeste de França, onde não tem sequer eletricidade e vai buscar água ao poço. Há cada vez mais casos identificados, com longas listas de sintomas, e estas pessoas são obrigadas a retirar-se da sociedade - onde a radiação é constante.

O curioso deste caso é que o tribunal de Toulouse, que concedeu o direito ao subsídio, não reconheceu formalmente a hipersensibilidade eletromagnética (EHS, na sigla inglesa) como uma doença, o que torna o caso de Marine Richard inédito. "Tal como outras condições provocadas pelo ambiente, esta decisão abre um precedente para que estas pessoas não sejam excluídas do resto da sociedade sem meios para manter alguma dignidade", diz ao DN Michael Bevington, trustee da organização sem fins lucrativos ElectroSensitivity UK (ES-UK). "Já houve casos no Reino Unido em que as pessoas receberam compensação depois de perderem o emprego devido às lesões da radiação do wi-fi, mas esses subsídios foram atribuídos usando nomes alternativos para a doença ou mantendo-a em segredo." Richard poderá agora mudar isso.

A OMS classifica esta condição como uma intolerância ambiental idiopática (isto é, da qual se desconhece a causa) que está ligada à sensibilidade ao barulho, luz e alergéneos (como químicos). Foi inicialmente identificada entre trabalha- dores de radares e componentes elétricos na década de 1930, mas só a partir dos anos oitenta - com computadores, telemóveis e wi-fi desde 2000 - começou a espalhar-se. Organizações como a ES-UK pressionam os governos para imporem limites; o Conselho Europeu pediu aos governos que estabeleçam zonas "brancas", livres de radiação criada pelo homem, e apelou mesmo à proibição de wi-fi e telemóveis nas escolas. É que a OMS, apesar de não reconhecer os campos eletromagnéticos como causadores da doença, classificou a radiação eletromagnética em baixa frequência e em frequência de rádio um agente potencialmente cancerígeno.

O problema é que a massificação destas tecnologias é recente, e a OMS diz que são precisos mais estudos científicos para chegar a uma conclusão. Mas as vítimas podem começar a ser cada vez mais novas. No final de agosto, os pais de um estudante de 12 anos processaram uma escola em Boston por causa do wireless. O rapaz começou a sofrer efeitos adversos depois de a tecnologia de acesso à internet ter sido instalada na escola de Fay, em Southboro, mas a direção não acedeu aos pedidos dos pais e o caso está agora em tribunal.

"Recentes desenvolvimentos na compreensão da EHS incluem sugestões de ligações genéticas", indica Michael Bevington, referindo-se a um protocolo de diagnóstico apresentado em Bruxelas, em maio - e que sugere que 40% dos adultos nos Estados Unidos que sofrem inflamações crónicas também são sensíveis à exposição eletromagnética. "Um especialista em saúde ambiental chamou a isto "o desastre do século XXI"", sublinha Bevington. Alguns países, como Estados Unidos e Suécia, reconhecem a EHS; outros, como o Reino Unido, negam-na. Na Virgínia, EUA, há uma zona livre de radiação, Green Bank, para onde se mudaram pessoas que sofrem da condição: a BBC chamou-lhes os "refugiados do wi-fi". Várias empresas vendem aparelhos para minimizar o impacto da radiação, desde sacos-cama, monitores e filtros de eletricidade a camas de dossel protetoras.

Além da hipersensibilidade eletromagnética, surgiram nos últimos anos outros problemas relacionados com o uso de tecnologia. Aquilo a que já se chama "o pescoço dos sms", em que a pessoa força constantemente o pescoço para baixo quando mexe no telefone, está a crescer em escala e a causar uma autêntica epidemia. Foi o que lhe chamou o diretor de cirurgia da coluna do New York Spine Surgery and Rehabilitation Medicine, Kenneth Hansraj, num artigo do The Washington Post no final de 2014. Essa posição forçada equivale a uma sobrecarga de cerca de 30 quilos no pescoço, o que pode danificar seriamente a coluna. Distúrbios no sono são outros efeitos frequentes: a luz artificial da televisão, dos computadores e dos smartphones afeta a produção de melatonina e perturba os ciclos circadianos.

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