"A verdade não pertence em exclusivo a ninguém"

O adeus. Poucos minutos depois das quatro da tarde, o corpo de Mário Soares foi levado para o jazigo onde desde julho do ano passado está o de Maria Barroso. Com rosas amarelas e cravos vermelhos.

Lilah, de 9 anos, e Jonas, de 13, recebem de braços estendidos as insígnias do avô. Os dois netos mais novos de Mário Soares estão na primeira fila e suportam o intenso frio da tarde lisboeta. Isabel beija, comovida, a bandeira nacional que Marcelo Rebelo de Sousa acaba de entregar-lhe, a ela e ao irmão João. Seis jovens militares levantam a urna aos ombros. Termina o lado público da despedida, a partir de agora um assunto da família Barroso Soares, com rosas amarelas e cravos vermelhos. Marcelo afasta-se discretamente, mas as centenas de pessoas presentes querem ficar.

Passam poucos minutos das quatro da tarde e o Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, acolhe o corpo do antigo Presidente, no mesmo jazigo onde desde julho de 2015 estão os restos mortais de Maria de Jesus Barroso. Fica à esquerda da capela central e do memorial de Jaime Cortesão, e facilmente vai atrair quem queira homenagear Mário Soares. Ontem, a área estava reservada à família e amigos mais próximos, guardada sem concessões pelos militares mobilizados para a cerimónia.

Já então tinham passado os breves minutos do desfecho das cerimónias fúnebres, chegado o cortejo que fora acompanhado por milhares de pessoas ao longo do percurso desde o Mosteiro dos Jerónimos. Nas horas anteriores, ultimaram-se os preparativos, os militares ensaiaram os movimentos, algumas pessoas foram ocupando o espaço, os jornalistas à espera nas zonas que lhes foram reservadas contando entre si episódios vividos com o antigo presidente. Ainda sob um céu com nuvens escuras, estava tudo preparado, cada passo cronometrado, os olhos fixados na essa dourada. Não é um erro, a palavra está certa e foi devidamente informada pela organização. "Essa" é o nome do estrado de madeira sobre o qual caixão foi depois colocado.

Depois de as bandas militares entoarem o hino nacional, no exterior, ouviu-se o sino do cemitério a anunciar a entrada da urna. A família Barroso Soares chegou em bloco, Isabel e os sobrinhos mais novos à frente, logo seguidos de João e Annick. Na primeira fila, ficaram acompanhados por Marcelo, Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva em representação do governo. Logo a seguir, os netos mais velhos e outros familiares, como Eduardo e Alfredo Barroso, e também os ministros Maria Manuel Leitão Marques e Luís Castro Mendes, rodeados por amigos. Atrás da guarda de honra, acumulavam-se muitas pessoas que tinham acompanhado o cortejo e queriam ficar até ao fim.

E então ouviu-se a voz de Soares: "Nasci num país intolerante e pobre" - assim começou o excerto de um discurso da campanha que o levou à Presidência em 1986. Nem os aviões que por aquele corredor se aproximam sucessivamente do aeroporto da Portela se sobrepuseram às suas palavras: "Uma certeza que sempre tive é que a verdade não pertence em exclusivo a ninguém e não há nada que substitua a tolerância. Este é um dos meus grandes princípios. Estive sempre com os que foram e são oprimidos e se sentiam e sentem excluídos do seu país. Lutei sempre para que os portugueses pudessem conviver em liberdade uns com os outros e para que todos se sentissem parte integrante de Portugal."

Foi então que dois militares devolveram à família as insígnias que tinham estado expostas nos Jerónimos. Receberam-nas Lilah e Jonas, para serem logo depois recolhidas por alguém do protocolo. Depois foi a vez da bandeira nacional. Retirada de cima da urna e dobrada por militares dos três ramos das Forças Armadas, foi entregue por um oficial da Marinha ao chefe do Estado-Maior-General, general Artur Pina Monteiro, que a confiou ao Comandante Supremo, Marcelo Rebelo de Sousa, e finalmente chegou às mãos dos irmãos Barroso Soares. As palavras de Marcelo emocionaram Isabel, que beijou suavemente a bandeira.

As honras de Estado - este foi o primeiro funeral com estas honras desde Abril de 1974 - continuavam: seis militares, do Exército, da Armada e da Força Aérea, tomaram nos ombros a urna e dirigiram-se ao jazigo familiar, ao mesmo tempo que Marcelo saía de cena, dando o sinal de que aquele era o tempo da família.

Havia rosas amarelas, as flores preferidas de Maria Barroso, no portão do jazigo, mas só quem tinha chegado com grande antecedência as tinha visto. O que então se passou ficou apenas na memória dos mais próximos de Mário Soares, longe das máquinas fotográficas e das câmaras de televisão. Uma longa salva de palmas marcou o momento. A família tinha pedido que não houvesse fotografias no final e foi saindo da forma mais discreta possível. Os militares recolheram-se aos autocarros, os aviões continuaram a cruzar o céu, os pássaros puderam voltar às árvores depois do susto das 20 salvas que por três vezes soaram.

Nas ruas e nos cafés de Campo de Ourique, era fácil distinguir quem tinha estado no funeral de Mário Soares. Bebiam chá, leite quente, um copo de vinho, traziam flores. Amigos trocavam conversas em voz baixa. As televisões mostravam os últimos depoimentos e o desmontar da operação, imagens finais da saída do Cemitério dos Prazeres. Que outro nome poderia ter a última morada do homem que amava a vida com tanto entusiasmo e entrega?

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