Políticos e investidores adaptam-se à era da incerteza radical

Matteo Renzi, David Cameron, Theresa May - todos foram enganados pelas sondagens. O problema não foi que as sondagens estivessem erradas. Algumas eram muito boas, e a maioria estava certa no momento em que os líderes tomaram as decisões politicamente fatídicas. Os ex-primeiros-ministros italiano e britânico tinham claramente o apoio de uma maioria dos seus eleitorados quando convocaram referendos e tinham a certeza de que podiam vencer. O Partido Conservador estava realmente bem à frente do Partido Trabalhista em abril deste ano, quando a primeira-ministra marcou repentinamente as eleições. A velocidade com que o eleitorado mudou de ideias foi mais fatídica do que as próprias sondagens.

O eleitorado francês tem sido mais radical do que qualquer outro. Conseguiu erradicar praticamente todo o sistema político estabelecido numa curta sequência de eleições. Essa brutalidade ultrapassa tudo o que alguma vez vimos nos EUA ou no Reino Unido, onde os dois partidos tradicionais ainda dominam a política. Os franceses estão num processo de esgotar todas as suas alternativas. É doloroso pensar o que poderão fazer se algum dia ficarem desiludidos com Emmanuel Macron.

Em todos esses países, a crise financeira global tornou-se um ponto de viragem histórico devido ao efeito da resolução das crises sobre a distribuição de rendimentos e sobre a qualidade do setor público. Isso desencadeou uma reação política duradoura contra a globalização e contra os acordos comerciais modernos. Desafiou as crenças, até então firmes, sobre política económica e regulação financeira. E agora está a pôr em causa a maneira como pensamos a política.

A vitória do capitalismo sobre o comunismo foi o acontecimento mais formativo para muitos dos comentadores e analistas atuais, como foi o meu caso. A nossa geração aceitou plenamente os paradigmas do capitalismo financeiro global, apesar de termos sido céticos quanto à euforia do fim da história da década de 1990. Celebrámos o advento do pragmatismo de centro-esquerda e uma nova geração de líderes de centro-esquerda.

A nossa falha foi confundir o politicamente conveniente com a verdade universal. A crise financeira transformou o que exteriormente parecia um ambiente político e financeiro estável naquilo a que matemáticos e físicos chamariam um "sistema dinâmico". A principal característica de tais sistemas é a incerteza radical. Tais sistemas não são necessariamente caóticos - embora alguns o possam ser - mas são certamente imprevisíveis. Não se pode modelá-los com algumas equações. O máximo que se pode fazer é identificar pontos de instabilidade e ficar longe deles, avançar e manter os olhos bem abertos.

A incerteza radical é um enorme desafio, porque nunca se pode ter grandes certezas. Em particular, já não se pode ter a certeza de que se pode extrapolar as tendências do passado para o futuro. As sondagens estão a tornar-se menos relevantes (mesmo que pudessem produzir um instantâneo correto da opinião num dado momento). Mesmo as ferramentas ultramodernas, como a análise de redes sociais, não conseguem desvendar um futuro desconhecido. A utilidade dessas ferramentas limita-se a explicar o que correu mal no passado.

Num mundo de incerteza radical, as apostas tornam-se mais difíceis porque a informação em que se baseiam é menos confiável. Isso é naturalmente verdade para os investidores, mas também para os políticos. Não é surpresa nenhuma que as grandes apostas políticas do nosso tempo, como os referendos recentes no Reino Unido e na Itália, tenham falhado.

Os políticos mais bem-sucedidos são aqueles que dependem de um conhecimento profundo dos seus eleitores e da sua própria intuição, e não de grupos de referência ou sondagens modernas. Para termos sucesso precisamos de entender a diferença entre os riscos que podemos calcular e a incerteza profunda que não podemos. Veja-se o brexit como exemplo. Um governo britânico teria de ser tolo para arriscar uma política que levaria a economia britânica a um desastre. Uma estratégia inteligente reconheceria que o brexit tem de acontecer, mas minimizaria os custos. A opção sensata é a mais avessa ao risco: uma longa fase de transição.

A era da incerteza radical e a necessidade da aversão ao risco acabarão um dia. Mas, até então, calculo que irão devorar mais relíquias da idade de ouro da moderação, como a meta da inflação. A ideia decorre de um modelo económico ligado à ortodoxia económica do período anterior. Quando se olha para a economia global como um sistema dinâmico, deixa-se de querer sujeitar um banco central ao rigor de uma única meta. E pode-se querer questionar também a independência do banco central, uma vez que ela se baseia num consenso que pode já não se aguentar.

Quando aceitarmos que o nosso mundo globalizado tem características de um sistema dinâmico, muitos dos nossos pressupostos cairão como pedras de dominó, assim como os partidos políticos que se apegam a eles.

( C ) 2017 The Financial Times Limited

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