Amado e contestado - a homenagem

Orelógio registava 15.00. O silêncio reinava nas ruas de Lisboa, ontem. Na Rua de São Bento e na Calçada da Estrela, em frente à Assembleia da República e à Fundação Mário Soares, juntaram-se centenas de pessoas para homenagear um antigo presidente, símbolo da democracia de um país. Trânsito cortado, cortejo fúnebre nas ruas e um incrível silêncio respeitador e solene.

Independentemente da cor política, quando é hora de homenagear e de ser justo, ou como dizem os ingleses fair, os portugueses têm a capacidade de se unir por uma causa. A causa não é política, nem partidária, nem racial. Mas uma causa democrática, e essa deve unir-nos a todos, sem rótulos. Mesmo sabendo da grande contestação que Soares teve, por exemplo, em relação ao seu papel na descolonização, esse tema pode ficar suspenso por alguns segundos para que a homenagem se faça, perante a passagem da urna.

É assim que entendo os valores da democracia, da liberdade. Em paz, com sentido de Estado, e esse deve estar acima de muitos outros. Escrevo esta crónica como jornalista e como cidadã livre, orgulhosa da história de Portugal, mesmo sabendo que já atravessou terríveis momentos, por exemplo, na sua história económica.

Em 1977, aconteceu o primeiro resgate do Fundo Monetário Internacional (FMI). Com uma taxa de desemprego acima dos 7%, racionamento de bens e uma taxa de inflação a 20%, recorreu ao resgate pela mão do primeiro-ministro da altura, Soares. Nessa altura, foram também tomadas medidas para travar os excessos da Reforma Agrária.

No período de 1977 e 1983, a Lei de Delimitação de Setores foi outra das medidas económicas nos governos de Soares, importante para construir a economia que temos hoje. Em 1983 dá-se o segundo resgate do FMI, durante um governo liderado por Soares.

Em 1985, Soares põe a assinatura no tratado de adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia (CEE), no Mosteiro dos Jerónimos, onde ontem decorreram as cerimónias fúnebres. Seria um dos últimos atos oficiais do então primeiro-ministro, antes de ser eleito Presidente da República, em dois mandatos.

Morreu aos 92 anos. Nos últimos anos, criticou os excessos do liberalismo ou do capitalismo selvagem, que levaram a novas medidas de austeridade. Soares deixou marcas na sociedade e na economia. Ao longo destas nove décadas de vida, uma máxima vale a pena reter: "Não há nada que substitua a tolerância", afirmou Soares.

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