Ideias novas, problema velho

Limpar o quadro demasiado sujo de ideologia, teimosia e ideias feitas, apagar tudo bem apagado e começar a desenhar e escrever de novo. O que a PCS, de Jorge Moreira da Silva, se propõe é oferecer uma base de trabalho, o mais científica possível, para análise e resolução do problema da dívida pública. Se ignorarmos os diversos elogios ao anterior governo e à saída limpa, ou a insistência numa agenda de reformas estruturais, é precisamente isso que temos pela frente.

Os números dos quadros são frios e secos o suficiente para diversas leituras. Não há um caminho único, dizia Jorge Moreira da Silva ontem num encontro restrito com jornalistas ao início da manhã. "Nada disto obriga a um pensamento único. Os governos têm margem de manobra para definir políticas, desde que apontem para os mesmos objetivos. O mix de políticas para os atingir é da responsabilidade dos governos." Este trabalho está pronto desde abril, guardado para dar tempo público de digestão do relatório do grupo de trabalho PS/BE. Os dois documentos convergem no diagnóstico, mas divergem na cura. Arriscaria dizer, ainda assim, que é muito provável que a dupla Costa/Centeno esteja bem mais perto das ideias propostas ontem pela PCS do que das propostas saídas do grupo de trabalho PS/BE.

"Somos ousados em relação ao que achamos que o governo deve tentar conseguir, iniciando um debate europeu sobre o tema", dizia ontem Jorge Moreira da Silva, acrescentando que "os eurobonds só farão sentido com aprofundamento político da União e criação de um tesouro europeu". Ora aqui está mais um ponto de contacto com o outro relatório sobre a dívida. A verdade é que as soluções propostas por uns e por outros expõem a nossa fragilidade. Pouco ou nada depende verdadeiramente de nós ou de quem elegemos. Somos apenas devedores a tentar convencer credores da bondade de ideias sobre como melhor lhes pagar o que devemos. É aí que encalham as propostas para a União (ver caixa aqui ao lado). Duvido seriamente que a Europa esteja politicamente madura, ou que este seja sequer o momento certo, para adotar as medidas propostas pela PCS.

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