Este país não está para secretas

Portugal dá-se mal com a memória e a história mais recentes. Quarenta e tal anos passados e ainda nos falta fazer uma catarse minimamente decente da ditadura e da guerra colonial. Caminhamos enquanto comunidade como uma daquelas famílias numerosas que preferem o desconforto do silêncio ao alívio e clareza saídos de uma boa discussão. Somos, no fundo, como uma família que se junta nas festas tradicionais em ambiente mais ou menos normal, mas que recusa falar abertamente sobre aquele tio alcoólico e viciado em jogo, a tal prima com problemas de cleptomania, a namorada brasileira de 30 anos do tio viúvo com 80 ou o divórcio-surpresa do casal modelo da família.

Todos conhecemos os problemas, mas preferimos o silêncio. É assim que nos relacionamos com as zonas cinzentas e menos gloriosas do nosso passado coletivo, e será muito provavelmente essa característica que explica a relação dos nossos líderes políticos, de quase todos os nossos líderes políticos, com os serviços de informações da República. Não é algo que se digira rapidamente na passagem da ditadura para a democracia, concedo isso, mas pelas almas, já passaram 43 anos. Só a má convivência com uma má memória ajuda a explicar a forma como sucessivos governos têm encarado as secretas. É como se os nossos serviços de informações fossem uma excrescência do Estado, um mal necessário que é preciso manter só porque sim, sem que seja necessário valorizá-los ou cuidar que sejam bem geridos e o mais eficazes possível.

Um exemplo apenas para justificar a última afirmação do parágrafo anterior. Está agora a começar a temporada dos festivais de verão e daqui a um mês estaremos em plena época de férias, com os principais destinos nacionais ainda mais carregados de turistas. Nos festivais e concertos de verão estamos a falar de largos milhares de pessoas em recintos de vigilância muito complexa - e garantida quase em exclusivo pelos privados que organizam os espetáculos. Pensem comigo. A segurança é um dos principais argumentos do nosso país enquanto destino turístico. O turismo é um dos principais fatores na recuperação da economia. E, por último mas não menos importante, o turismo é uma atividade altamente sensível a notícias de atentados ou falhas de segurança - aliás, estamos a surfar esta onda porque, em boa medida, conseguimos dar resposta numa altura em que outros destinos na bacia do Mediterrâneo tornaram-se inseguros. De certeza que queremos desprezar, sentirmo-nos pouco confortáveis com o trabalho - ou desleixar a escolha do secretário-geral do sistema de informações - de quem tem como missão estar vigilante, escavando informações sobre possíveis ameaças a este tipo de eventos e aos nossos destinos turísticos?

Não sei, em boa verdade, se a pedra histórica no sapato de que falava há pouco ajuda a explicar o atabalhoamento do primeiro-ministro no processo de escolha do novo secretário-geral do Sistema de Informações da República Portuguesa. Sei que, num outro país, numa democracia ocidental vagamente mais evoluída, o nome já teria sido retirado ou nem sequer teria chegado a ser equacionado. Se algo falhou em todo este processo foi a falta de um escrutínio prévio, discreto, realizado pelo gabinete de António Costa. Nisto de cargos sensíveis, e não há muito mais sensível do que este, é altamente aconselhável que não haja escolhas pouco cuidadas ou nomes atirados para a praça pública sem uma avaliação cuidada. Sabemos agora que o primeiro-ministro está preocupado com o perfil do diplomata José Júlio Pereira Gomes e que tem estado a ouvir pessoas para reavaliar a escolha. O mal está feito e mais uma vez fica demonstrado que a liderança e gestão dos serviços de informações não estavam nas prioridades do primeiro-ministro.

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