Estará o governo a atingir o limite da sua própria narrativa?

Os compromissos europeus a que o governo está amarrado não vão permitir um alívio fiscal generalizado. Sem isso, pouco ou nada muda na vida da classe média

Os sindicatos e as corporações estão em fase de ressurreição. Vendo, ouvindo e lendo as últimas semanas, temos diversos palcos de contestação, pressão e ultimatos ao governo, ameaças de greve e agendamento de manifestações. Quanto de tudo isto é encenação? Qual será o efeito nos apoios do governo? Quanto é subproduto do "irritante otimismo" do primeiro-ministro? Quanto é resultado natural de uma economia a respirar um pouco melhor?

Sim, estamos em ano de eleições e o PCP iria sempre procurar alguma autonomia estratégica via movimento sindical. Descolar do governo para segurar a base de apoio. É da vida. A questão agora é saber até onde irá o governo ceder. Eu diria que não será muito. Um ganho de causa aqui, outro acolá. No fundo, António Costa sabe que o cimento que une PCP, Bloco e Verdes ao seu governo é demasiado forte. É um cimento com dois componentes muito sólidos: "Somos nós ou a direita" é uma frase capaz de acalmar qualquer discussão mais acesa em dias quentes pré-orçamento e o igualmente poderoso "quem romper isto vai pagar caro nas urnas" é outro argumento com potencial para travar ondas de contestação ou agendas mais radicais. A direita chama-lhe coligação negativa enquanto a esquerda apregoa resultados positivos. Seja qual for o ponto de observação, o certo é que não será esta onda de agitação social a perturbar o governo ou a coligação que o segura. Há muito de encenação naquilo a que temos assistido nas últimas semanas e na hora da verdade Costa sabe que o tal cimento não vai quebrar. Até o PSD já percebeu isto e mudou de discurso.

Depois, como me parece óbvio, nem António Costa poderia esperar uma navegação isenta de borrasca com o discurso que tem feito, nem Centeno poderia seriamente ambicionar ter professores, juízes e médicos sossegados para sempre ao apresentar os números que tem apresentado. Estamos pois perante uma inevitabilidade. São as faixas mais organizadas da sociedade - em sindicatos ou corporações - as primeiras a exigir uma fatia mais substancial do bolo. Não há surpresas aqui. Nada para ver. A economia melhorou, há margem para exigir mais e a contestação surge. Arrisco dizer que todos - PCP, sindicatos e corporações - estão a seguir, sem grandes desvios, o guião desenhado por Costa.

É com o resto do país que o governo deve preocupar-se. A maioria não está representada por sindicatos ou corporações e não tem uma via verde para acesso às redações de jornais, rádios e televisões. O salto foi grande, entre o discurso de Passos Coelho e o de António Costa. Da apologia da austeridade e da dor que expiam todos os pecados e garantem a salvação - o crescimento da economia - até ao país positivo capaz de todos os impossíveis vai um enorme salto. A atual narrativa é de muito mais fácil digestão? Claro que é. E houve alguma devolução de rendimentos, é inegável. Mas será suficiente? O que foi devolvido às famílias está ao nível do discurso positivo do governo? A verdade é que há um limite à criação de expectativas. Um belo dia, as tais famílias sem representação sindical ou corporativa lá em casa vão reparar que a vida não está tão cor-de-rosa quanto isso, que o pouco que recebem agora a mais está a esfumar-se em impostos indiretos ou inflação. Vão reparar que o país de que lhes falam na televisão às oito da noite ainda não lhes bateu à porta, esqueceu-se deles. Vão querer mais, porque lhes é dito todos os dias que o país está melhor, que somos capazes de mais e melhor, mas não vão conseguir lá chegar. A verdade é que, para lá do discurso e da narrativa, as metas orçamentais a que o governo se obrigou, e os compromissos europeus a que está contratualmente amarrado, não vão permitir um alívio fiscal generalizado. Sem isso, pouco ou nada muda na vida da classe média, a mais castigada nos anos do ajustamento.

Até ver, as sondagens não revelam esse deslaçar da ligação do PS e de António Costa com os eleitores, antes pelo contrário. Mas, não me parece que seja suficiente, para manter o governo em estado de graça e o país em fase maníaca de elevada autoestima e confiança, distribuir umas migalhas para ter sindicatos e corporações dentro do guião.

Do mesmo autor

Mais em Opinião

Conteúdo Patrocinado

Mais popular