À espera de que a luz se apague?

Alguns consensos em Portugal são oportunistas. Muito oportunistas. Nascem das contingências e da má figura que alguns partidos fariam se não se atirassem para os braços de uma unanimidade.

De repente, PS, PSD e CDS juntaram-se ao BE e PCP no coro dos que reclamam contra as rendas excessivas no setor da energia. Defendem mesmo a renegociação dos contratos que foram celebrados e já no âmbito do Orçamento do Estado para 2018.

Um consenso oportunista este? Óbvio que sim, porque deixa todos bem na selfie dos justiceiros contra os interesses instalados nesse setor. E num momento em que a EDP e a REN estão a ser investigadas e há vários arguidos constituídos.

As compensações às empresas de energia foram negociadas no governo de José Sócrates. Veio o resgate e a troika, que detetou logo que o governo tinha sido demasiado generoso e aberto os cordões à bolsa nas rendas e pediu um corte nas ditas.

No governo de Passos e Portas, um secretário de Estado da Energia, de nome Henrique Gomes, encheu o peito de ar e, em 2012, tentou levar por diante a correção, através de uma contribuição especial sobre as rendas da EDP. Acabou por ser uma vítima da sua vontade. Com menos de nove meses no cargo, saiu do governo em guerra aberta com o setor energético - EDP, EDP Renováveis, Galp e REN.

Um ano depois de ter batido com a porta (ou de ter sido empurrado) o ministro que o tutelava, Álvaro Santos Pereira admitia que o secretário de Estado tinha saído por pressões do lóbi do setor da energia. O próprio Henrique Gomes na mesma altura acusou o governo de coligação de manter "um silêncio ensurdecedor" perante os privilégios da EDP.

Estávamos em 2013, estamos em 2017. Quatro anos depois, o mesmo ex-secretário de Estado dá hoje uma entrevista ao DN em que reitera que "o lóbi da energia tem condicionado os governos".

Ora, está a falar de governos do PS e do PSD (alguns de coligação). E só agora os partidos acordaram para a necessidade e justiça de aliviar o Estado de rendas que acabam por pesar muito sobre os consumidores.

O bloco central agita-se agora perante a investigação na EDP. Mas podem ficar muito desfocados na fotografia se for só trinta e um de boca. Se ficarem à espera de que se apague a luz da investigação para manter tudo na mesma. Ou seja, continuarem a não exercer qualquer pressão sobre as referidas empresas para que os contratos celebrados com o Estado sejam "revisitados". Uma palavra cheia de sala- maleques que os partidos usam e que diz tudo sobre a intenção de mexer nesta matéria.

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