Um animal político

Foi dos livros em que mergulhei nos últimos tempos o que mais prazer me deu. O Independente - A Máquina de Triturar Políticos é, além de prosa superior e bom jornalismo por culpa do Filipe Santos Costa e da Liliana Valente, um manual indispensável para perceber a cabeça e o modo de agir de Paulo Portas. Estávamos no início da década de 1990, em plena ressaca da segunda maioria absoluta de Cavaco Silva. Armado de instinto político irrevogável e de talento pregador invulgar, o então diretor do semanário que a direita lia com devoção religiosa oferecia ao CDS as "sete chaves" para o futuro, isto é, "as sete recomendações para quem pretenda pensar na direita".

Tal como hoje, mesmo que a direita não esteja "no ponto zero" - na verdade não sabemos qual a cotação de mercado do CDS por estes dias -, era tempo de "pôr tudo em causa e começar de novo". Ouvindo a comunicação ao país de Paulo Portas na madrugada de ontem, foi--me impossível não recordar o que Portas escreveu há 25 anos sobre a refundação do partido após um catastrófico resultado eleitoral.

Dizia o evangelizador que o inimigo era a esquerda em toda a sua dimensão e o adversário o partido rival que lhe disputava o eleitorado. Desfeita a aliança com o PSD e recuperada a autonomia política e estratégica, o inimigo continua o mesmo, mas agora no poder, e o adversário volta a ser o seu ex-parceiro de coligação. A descolagem e a rivalidade já se notaram nas votações de sentido distinto no Parlamento, com Passos Coelho a dar a mão a António Costa e Paulo Portas a seguir caminho diferente. Na reflexão sobre o que aconteceu a 4 de outubro de 2015, Portas sentencia que nada ficará como dantes. Curiosamente, apanhou com o balde de água fria cavaquista noutro outubro, o de 1991. Nessa altura, o guião escrito a Futura azul-petróleo e impresso em papel de jornal determinava que não haveria alianças, que a democracia cristã era insuficiente, que o centro partidário não existia, que era imprescindível oposição forte e que havia urgência de novas bandeiras.

Agora, e antecipando nas entrelinhas um inverno mais longo do que o previsto, Paulo Portas prevê que o centro-direita só voltará a ser governo em Portugal com maioria absoluta de deputados, que é necessária uma agenda renovada e inovadora, que o CDS e o PSD vão ter de pedalar e crescer muito, mas seguramente cada um por si. No novo ciclo - Portas faz questão de vincar as diferenças para o PSD de Passos, como o tinha feito em 1991 para o de Cavaco -, "o chamado voto útil será muito mais relevante" e os eleitores "darão muito mais valor a um partido que não é calculista nem demagogo", leia-se, o CDS.

Num clichê, Paulo Portas é animal político, o melhor da sua geração. E por isso percebeu que continuar seria, além de penoso para si próprio, um trunfo para o inimigo. Com muitos defeitos e outras tantas virtudes, já foi tudo e o seu contrário nas convicções com o objetivo único de fazer do CDS partido de poder. Ultrapassou linhas vermelhas, desprezou eleitores que nele confiaram, anulou o partido uma e outra vez em nome de coligações de governo. Mas o novo ciclo impõe-lhe mudança de vida. Resta saber por quanto tempo. Uma coisa é certa: goste-se ou não do estilo e do modus operandi, a política sem Paulo Portas não tem o mesmo sal, a mesma graça ou o mesmo apelo. É bom que continue a andar por aí, quanto mais não seja para que tantos, como eu, tenhamos o prazer de dele discordar.

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