O Egito e a crise

1 O que se está a passar no Egito é um dos problemas mais sérios neste mundo cada vez mais complexo e em crise. E, entretanto, trata-se de um dos países mais curiosos e interessantes que existem. Conheço o Egito bastante bem. Visitei-o várias vezes, de norte a sul, no tempo de Mubarak.

A história do Egito, do tempo dos faraós e das pirâmides, é das mais interessantes do planeta. O Nilo, o rio que o atravessa, é dos maiores do mundo. Várias vezes viajei nele, sendo dos mais interessantes e longos, vindo da África equatorial, tendo nas suas margens e paisagens uma história das mais extraordinárias. Por ali passaram as grande figuras das diferentes religiões, desde a entrada no Egito até Alexandria, essa grandiosa cidade do Mediterrâneo, por onde passaram os gregos e a que o grande Alexandre Magno deu o nome e onde está hoje uma das bibliotecas mais curiosas do mundo. A minha mulher visitou-a várias vezes, mas eu, infelizmente, bibliógrafo desde jovem, nunca tive o gosto de a visitar.

Vem isto a propósito, como os meus leitores já perceberam, da situação crítica e das lutas entre militares e islâmicos, de várias origens, que está a ocorrer, depois da auspiciosa primavera árabe e da prisão de Mubarak, que era um ditador, com se sabe, mas pacificou e desenvolveu o Egito.

Hoje o Egito está em guerra civil e bem cruenta. Por um lado estão os militares, amigos e formados nos Estados Unidos, que talvez por isso parecem protegê-los, e do outro está a chamada Irmandade Muçulmana, que representa a maioria e quer, através de eleições, o poder. Como julgo saber, dadas as leituras que tenho feito, quem tem razão são os islâmicos, ao contrário do que pensam os Estados Unidos. Será que Barack Obama - que tem vindo a criar no seu país boas relações com os árabes, como sunitas, xiitas e todas as outras nuances religiosas - também neste caso esteja com os militares? Tenho dúvidas de que entre em tal contradição.

A verdade é que o Presidente Mohamed Morsi, eleito, por escrutínio universal, foi já afastado do poder pelos militares e os seus partidários, que se manifestam em seu favor, estão a ser mortos em cadeia pelos militares, com o aplauso dos militares dos Estados Unidos e de vários países da Europa em crise. Assim a paz não é possível. E o pior é que não é só no Egito. Vai propagar-se a outros países árabes e africanos. E a paz tornar-se-á cada vez mais difícil, neste mundo em crise e tão complexo.

2 COMO VAI O BRASIL?

Ao contrário do que eu pensava, os jovens de São Paulo voltaram a manifestar-se ativamente contra a Presidente Dilma e o Governo.

Conheço bem a Presidente Dilma, que foi uma revolucionária muito corajosa, que esteve presa e torturada no tempo dos militares ou seja os generais eram quem mandava, como verdadeiros ditadores que eram. Um deles foi depois embaixador em Portugal e passou cá o 25 de Abril e outro que também conheci, depois, quando era ministro dos Negócios Estrangeiros, e fiz uma visita oficial ao Brasil.

Vi Dilma de novo em Lisboa, quando cá veio a convite do Presidente Cavaco Silva e me deu a honra de me receber no Ritz, onde ficou, antes de começar a sua viagem oficial. Tivemos uma conversa muito interessante, pela densidade das suas perguntas e pelos conhecimentos profundos que tem nos planos social e político.

Por isso me custa perceber a raiva que hoje lhe têm os jovens de São Paulo e de vários outros Estados brasileiros, embora com menos intensidade.

Alguma coisa vai mal no Brasil, depois de um período de grande expansão e desenvolvimento, devido em grande parte aos Presidentes Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva. Mas não creio que sejam da responsabilidade de Dilma Rousseff as dificuldades do Brasil atual. Pelo contrário.

Os países têm dessas mudanças, como a China, outro grande Estado, cuja situação não está a correr tão bem como já esteve. Para não falar da crise tremenda que, nascida nos Estados Unidos (que está a melhorar), se comunicou à União Europeia, ou melhor: à Zona Euro.

Realmente a Europa está a viver uma crise que só tem comparação com a que viveu a Alemanha de Bismark, quando Hitler surgiu, e ninguém se esqueceu dos horrores da II Grande Guerra Mundial e do que custou a todos os povos. O Brasil viveu bem esse tempo e participou nele, com Getúlio Vargas, e Portugal, apesar de neutro, também o sentiu, com os fugidos do nazismo, sobretudo os judeus que por aqui passaram e muitos a caminho do Brasil.

A verdade é que, nos últimos anos, o Brasil viveu um período de grande expansão, como não teve nenhum outro país da América Latina, nem sequer o México. O que o tornou um dos grandes países emergentes, como a China, a Índia, a Rússia e poucos mais.

Subitamente as coisas estão a mudar, ao que parece, e as dificuldades surgiram. Acontece a todos os países. Lula da Silva foi muito importante para dar um impulso de progresso a muita gente pobre. Mas ficaram de fora, como é natural, num país-continente, muitos outros, em nome dos quais, hoje os jovens da classe média protestam. É o que penso, mas talvez me engane. Quem sou eu, embora amigo irmão dos brasileiros, como se sabe, para me pronunciar a propósito de uma situação tão complexa? Mas tenho uma admiração sincera pela Presidente Dilma como por Lula, embora esteja hoje demasiado silencioso, isso penso...

3 UM CASO QUE ME FAZ PENA

Conheço mal Álvaro Santos Pereira, que depois de ter sido nomeado ministro da Economia e do Emprego e, salvo erro de mais duas ou três pastas, me telefonou e quis visitar-me na Fundação de que sou presidente. Tinha-me antes, ainda no Canadá, mandado um livro da sua autoria, que me pareceu interessante e eu, como sempre faço, agradeci com uma carta simpática.

Recebi-o na Fundação, não antes de lhe dizer que, sendo ele ministro, devia ser eu a deslocar-me ao seu ministério, o que faria com todo o gosto. Insistiu em vir e eu rendi-me, apesar de como logo lhe notei, não pertencermos à mesma família política. Recebi-o, pois, com curiosidade e delicadeza.

Queria, segundo me disse, aconselhar-se comigo sobre o cargo que tinha. Perguntei-lhe se não achava que ter quatro ministérios não o intimidava. Respondeu-me que não, porque tinha trazido alguns secretários de Estado em quem tinha muita confiança. Insisti no que, mesmo que assim fosse, não era a mesma coisa. E para lhe dar um exemplo, perguntei-lhe se sabia o que era ser ministro das Obras Públicas, quantos eram os funcionários (e não sabia) e que era um dos ministérios por onde passava a maior corrupção. Ficou espantado. Até hoje nunca mais o vi, embora me tivesse enviado uma mensagem muito simpática quando estive doente.

Mas segui o seu caminho, que foi, como eu previa, muito desagradável por ser maltratado pelo Governo que o nomeou. Foi, no entanto, o único ministro que saiu do carro e enfrentou sem medo uma vaia que lhe fizeram.

No entanto foi dos primeiros a ser persona non grata para Passos Coelho e foi agora o único a ser dispensado, sem a mínima justificação pública ou privada, ao que parece. Aliás, nos dias anteriores ao discurso do Presidente Cavaco Silva foi dito que saía. Uma vergonha inaceitável. Várias vezes pensou que ia sair e depois ficava. Uma situação que só pode acontecer por se pensar que as pessoas não contam e só o dinheiro é importante...

4 UM PAPA ADMIRÁVEL

Cada vez mais me encanta Sua Santidade o Papa Francisco, que tem estado no Brasil a visitar os jovens com enorme êxito. Onde têm estado, impressionadíssimos, jovens brasileiros, portugueses, angolanos e moçambicanos, em suma do espaço da Lusofonia e muitos outros vindos da América Latina e de Espanha.

Pode dizer-se que a sua visita aos jovens foi um grande sucesso, pela verdade do que disse, mais uma vez em favor dos pobres e contra os corruptos e os maus políticos, sem excluir a Cúria Romana e o que por lá se passa. É, com efeito, um excecional comunicador, que com simplicidade defende os pobres, é contra os políticos e empresários corruptos, bem como a chamada austeridade e o capitalismo selvagem, que claramente abomina, e o economicismo que tem vindo a criar crise sobre crise, neste nosso mundo tão complexo e desprovido dos valores éticos. Sem esquecer as Igrejas, que no Brasil são múltiplas, e algumas, como as adventistas, muito ligadas ao dinheiro, mas sem excluir as Igrejas Católicas e o que se passa no Vaticano, que não é bonito.

É um Papa que ama os pobres, sem esquecer os jovens e as crianças, e diz o que pensa, com inegável modéstia e não tem medo de nada. Diz o Público numa nota de pé de página em que cita uma jovem católica maronita, brasileira, penso, em Copacabana: "É o Papa dos pobres, o Papa de que o mundo precisava." E, adiante, outra diz: "Faz-nos sentir que a Igreja é de novo nossa." É certo. Mas este Papa, ao contrário do que o Público diz, não é um sedutor. É um homem simples, que diz o que pensa e tão só a verdade, com muita coragem. Fenómeno raríssimo e sobretudo nos tempos que correm...

5 E AGORA PORTUGAL

Que amo, como patriota de que me orgulho de ser e, além disso, alfacinha de gema. Por isso não posso estar feliz com o novo Governo que, ao contrário do anterior, é enorme, parece que entre ministros e secretários de Estado tem agora 56 membros. Para quê passar de um extremo ao outro? Um desvario completo. Sem esquecer a primeira medi- da anunciada: a privatização dos CTT (uma desgraça para os pobres da província) e que vão de novo vender a TAP, a retalho, como de costume, o que indigna todos os portugueses e sobretudo os nossos emigrantes.

O insuspeito jornal Sol intitulava o novo Governo como assustado visto que - cito - "novos chumbos deixarão ministros sem alternativa para cumprir as metas e os juízes do Tribunal Constitucional ficam de piquete no verão para fiscalização preventiva". Mas mais, ainda da primeira página do Sol, volto a citar: "A troika não gostou nada da crise". Porquê? É claro: porque a falta de acordo "retira confiança para o cumprimento daquilo que venha a ser acordado pela troika" e que os mercados deixam de ter confiança em que lhes paguem e sejam os funcionários, os pobres e a classe média a pagar, devido aos erros da austeridade, reconhecidos pelo próprio Vítor Gaspar, de quem o novo Governo não fala, porque é um tabu.

Aliás, não me engano, espero, é também um Governo moribundo, com dois ministros impossíveis de continuar: a senhora Maria Luís Albuquerque e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, cujos currículos são conhecidos e difíceis de aceitar.

O caso mais interessante é o do ministro de Estado e vice-primeiro-ministro do Governo, Paulo Portas, um homem inteligente sem dúvida, cuja vaidade o cegou. Passos Coelho, astuto, deu-lhe um presente envenenado, como Portas vai reconhecer rapidamente. Tudo lhe vai cair em cima, sem poder resolver nada, especialmente com a troika. Claro que as suas linhas vermelhas, foram todas já esquecidas e nem sequer existem.

Mas para Portas o que lhe vai doer mais é, como verá, não poder fazer nada de interessante. Nem na economia, de que penso não dever saber muito, nem com a troika, que, pelo seu passado recente antiausteridade, o considera suspeito. Sem falar do seu partido, que só perdeu e nada vai ganhar. Antes pelo contrário. Penso eu. Passos Coelho, fez-lhe, com enorme habilidade, uma grande partida. Como se verá.

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