Tão formosa e tão chinesa

Pense bem e talvez se recorde de ter lido alguma notícia sobre Taiwan nos últimos tempos: pode ter sido a eleição em 2015 de uma presidente, novidade na Ásia se descontarmos as herdeiras de dinastias políticas, ou a previsível aprovação a curto prazo do casamento homossexual, o que seria inédito no maior e mais populoso dos continentes. Também pode ter visto nos jornais que o Panamá cortou há dias relações diplomáticas com Taiwan, algo que São Tomé e Príncipe igualmente tinha feito em finais de 2016. E é provável que tenha notado que a economia taiwanesa está a ter um bom comportamento neste ano, sobretudo a atrair investimento estrangeiro.

Este resumo de temas que geralmente trazem a pequena ilha a que os navegadores portugueses chamaram Formosa para as páginas dos jornais é uma boa síntese daquilo em que se transformou Taiwan. Por um lado é uma sociedade desenvolvida, democrática há mais de duas décadas; por outro lado vive uma constante tensão com a China continental, que vem dos tempos da guerra civil de 1946-1949 que Mao Tsé-tung acabou por ganhar a Chiang Kai-Shek; notável, no fim de contas, é que uma ilha com 23 milhões de habitantes seja a 22.ª economia mundial, à frente da Polónia, da Tailândia ou da Nigéria.

Vale a pena recordar que Taiwan se chama República da China. E que a China Continental é oficialmente a República Popular da China. ROC versus RPC, pois. Até 1971, era a ROC que se sentava na ONU, considerada como a representante legítima do povo chinês. Desde então, e sobretudo desde que em 1979 a América passou a reconhecer a RPC, os aliados da ROC têm diminuído, não restando mais do que 20 após esta rutura panamiana.

É que ao contrário das Coreias, ROC e RPC insistiram sempre em ser exclusivas e quem quiser relações diplomáticas com uma sabe que perderá a outra como parceiro.

Para evitar uma guerra no estreito de Taiwan, as duas partes decidiram concordar em 1992 que há só uma China. Um consenso que impede Pequim de invadir a ilha onde Chiang e seguidores se refugiaram, e permite a Taipé ir gerindo uma independência de facto que não pode ser transformada em de jure.

Nos tempos do anterior presidente taiwanês, Ma Ying-jeou, as relações interchinesas melhoraram muito, indo além da cooperação económica, de interesse mútuo (não por acaso a Apple encomenda os seus iPhone à taiwanesa Hon Hai que através do seu braço Foxconn os manda fazer na China), até a um histórico encontro entre os dois presidentes, em teoria Ma como líder do Kuomintang e Xi Jinping como secretário-geral do PC Chinês. Foi um tempo de boa vontade, até com trégua na diplomacia do cheque, truque usado pela ROC e pela RPC para captar aliados nos pequenos países.

A vitória de Tsai Ing-wen foi a vitória daqueles em Taiwan que não escondem querer um futuro separado da China. Há muitos jovens nascidos já em democracia e que olham com desconfiança para Pequim. A presidente, porém, tem sido cautelosa em não irritar demasiado o gigante ao lado e já percebeu que o apoio inicial de Donald Trump a um Taiwan independente desapareceu vítima do interesse económico da América.

China e Taiwan partilham a civilização chinesa, ainda que a experiência histórica da ilha (como a colonização japonesa entre 1895 e 1945) tenha gerado especificidades. Com o Kuomintang hoje enfraquecido, Pequim perdeu o velho inimigo-parceiro em Taipé e tem de lidar com um DPP que tem uma base eleitoral desafiante da ideia de unidade. Até agora, tem sido pela pressão que Pequim procura afastar os ímpetos independentistas, mas seria bom não desistir de cativar a boa vontade dos taiwaneses, nem que seja para manter o statu quo e deixar a discussão da reunificação para tempos mais propícios, talvez quando a China Continental estiver mais próxima dos padrões que os ilhéus se habituaram a ter, seja na liberdade política seja no desenvolvimento.

Taiwan, em nome da transparência, desistiu do cheque para comprar aliados diplomáticos. Faz bem. E Pequim, sabiamente, deveria evitar pequenas vitórias que pouco contribuem para o objetivo último.

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