Ser barbudo e não fumar canábis é uma espécie de Quarta Via

Há duas coisas que toda a gente dá por certa num veterano das causas esquerdistas: que usa barba e que na juventude fumou canábis. Pois no caso de Jeremy Corbyn só a primeira é verdade, como prova qualquer foto que lhe tenham tirado desde os 19 anos; a outra nunca aconteceu, garante o próprio, homem que tem fama de ser honesto. Uma terceira coisa que se costuma dar como garantido em alguém que foi esquerdista é que passará a vida a caminhar para o centro se quiser ter sucesso na política. Ora, uma vez mais o britânico Corbyn desmente isso, se quisermos esquecer que perdeu as eleições de ontem para os conservadores mas conseguiu o melhor resultado em deputados do Partido Trabalhista em uma década e olhando só para percentagem de votos até fez melhor do que Tony Blair da última vez que foi eleito primeiro-ministro, em 2005.

Blair, oh Blair! Juventude, ar de financeiro da City, centrista mais do que trabalhista. Sabedor de que os britânicos estavam cansados dos conservadores, o escocês preparou com a ajuda dos conselheiros e amigos o assalto ao poder em 1997 e arrasou. Chamou à fórmula Terceira Via, ganhou três eleições consecutivas, inédito na história centenária do Labour e foi-se embora sem perder, porque passou a pasta, já gasta, a Gordon Brown, um dos tais amigos, o mais decente deles. Ora, criticado por ter feito de ajudante da América na invasão do Iraque com base em falsas provas de armas de destruição maciça, Blair passou a ser odiado por ainda mais gente quando se dedicou a fazer fortuna graças à agenda de contactos telefónicos. Mesmo assim, com pouca gente a querer ouvi-lo hoje, causou impacto quando decretou que Corbyn, o nacionalizador, à frente dos trabalhistas seria a derrota certa, talvez até a aniquilação total.

Corbyn, oh Corbyn! Se alguém sempre falou mal de Blair no Partido Trabalhista foi Corbyn. Aliás, o atual líder tem forte currículo de votação em sentido contrário ao da sua bancada. No caso da invasão do Iraque, revelou-se uma voz incisiva contra a hipocrisia oficial, mas foi pouco ouvido talvez porque muita gente tenha confundido os argumentos com outros habituais em Corbyn, como a causa palestiniana ou a solidariedade com o Terceiro Mundo (sim, a expressão foi morta pelo politicamente correto mas vale neste caso).

Blair acertou e falhou. Corbyn perdeu, mas o Partido Trabalhista está longe de ter sido aniquilado. Uma casa de apostas londrina até tem o líder do Labour como favorito a primeiro-ministro, beneficiando de apoios vários e das lutas internas que se adivinham nos tories, com Theresa May a ter a posição ameaçada por incumprimento de objetivos. A sucessora de David Cameron, que se demitiu após o brexit, queria ser legitimada nas urnas e reforçar a maioria para poder negociar em posição de força o divórcio com a União Europeia.

É fácil simpatizar com Corbyn: vai de bicicleta para Westminster, é o deputado que menos despesas de representação apresenta, preocupa-se há décadas com os pobres, costuma dizer as verdades doa a quem doer. Sabe-se que os jovens gostam dele e que o ajudaram muito na quinta-feira E é difícil não sentir simpatia por alguém que surpreende depois de ter sido quase impedido de se candidatar a líder pelos deputados trabalhistas.

Mas agora vem a pergunta difícil: pode-se governar um país que é a quinta economia mundial, uma potência nuclear e um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU com as ideias de Corbyn? A resposta pode ser ideológica e por isso imediata, seja em que sentido for. Mas também pode passar por um sério exame ao programa trabalhista, sem preconceitos. Um dado é certo: desde há dois dias o Labour é o maior dos partidos socialistas/sociais-democratas/trabalhistas da Europa Ocidental. Talvez ser barbudo e não fumar canábis possa ser uma espécie de Quarta Via. Veremos.

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