Ninguém disse ao Qatar que o tamanho importa

Dos caças enviados para apoiar o derrube de Kadhafi aos assessores que ajudaram à eleição de Morsi no Egito, passando pelas armas fornecidas aos rebeldes sírios, o Qatar aproveitou ao máximo a Primavera Árabe para expandir a influência. De repente, os milhões de dólares gerados pelo gás serviam para mais do que fundar uma televisão, garantir a organização de um campeonato do mundo de futebol ou contratar prémios Pritzker para encher Doha de museus. Ao mesmo tempo, o emir Hamad Al-Thani passeava-se pela Europa, sempre acompanhado pela sua Mozah, que transmitia um ar de modernidade islâmica que só ajudava à imagem do pequeno país.

Ora, a abundância de dólares nunca disfarçou por completo a principal desvantagem geopolítica do Qatar, que é mesmo o tamanho: 12 mil km2, 200 vezes menos do que a Arábia Saudita, o vizinho que se habituou a ter a última palavra no golfo Pérsico. E dos 2,6 milhões de habitantes, só 330 mil são cidadãos, já contando os corredores quenianos e os andebolistas jugoslavos naturalizados a pensar em medalhas.

Só na aparência os interesses dos Al-Thani coincidem com os da dinastia Saud. Basta pensar que no Egito, quando o general Sissi derrubou o presidente eleito Morsi em 2013, a Arábia Saudita prometeu generosa ajuda, enquanto o Qatar chorava a queda da Irmandade Muçulmana. E na Líbia, se o Qatar mantém o apoio ao governo em Tripoli reconhecido pela ONU, já os sauditas preferem apostar nas forças do general Haftar. Mesmo em relação a Israel, as divergências são óbvias: os sauditas usam canais secretos para comunicar com o Estado Judaico e privilegiam nos palestinianos a Fatah, o Qatar dá refúgio a dirigentes do Hamas.

Tudo isto, porém, é verdade hoje como era há um ano. Que gota de água fez transbordar o copo e levar agora ao corte de relações entre Riade e Doha, com os sauditas a serem seguidos por vários países da região? A hipótese mais provável é a desconfiança saudita de que o jovem emir Tamim Al-Thani está disposto a arriscar mais do que o pai, esse Hamad que fundou a Al Jazeera e lançou as bases do protagonismo do Qatar mas que em 2013 abdicou para o seu segundo filho com Mozah, a princesa dos vestidos avant-garde com véu.

Educado em Inglaterra, com formação militar em Sandhurst, Tamim terá dificuldade em aceitar a tutela de Salman, o monarca saudita, que já catalogou o Irão de grande inimigo dos árabes e não quer ver campos de gás explorados a meias. E as recentes declarações a classificar o Irão de "potência islâmica", denunciadas por Doha como inventadas por piratas informáticos, desencadearam a atual crise, depois de já em 2015 o Qatar ter sido dos poucos países da região a não criticar o acordo sobre o nuclear iraniano pelo então presidente americano Barack Obama. Por tradição, só um país do Conselho de Cooperação do Golfo é tolerado quando faz pontes com o Irão - Omã, que não por acaso foi também ontem a exceção no que toca ao corte de relações.

Em 2014, outra crise a envolver a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein também teve repercussões sérias, com retirada de embaixadores. Na época, o Qatar foi acusado de ingerência nos assuntos dos vizinhos, mas agora apontam-lhe promoção do terrorismo, com apoio a grupos xiitas na região saudita de Qatif e no Bahrein.

Quase isolado, o Qatar conta com a vontade de mediação da Turquia e com o interesse dos Estados Unidos em salvar a coligação que combate o Estado Islâmico na Síria. Donald Trump, que escolheu o Médio Oriente para a primeira visita presidencial ao estrangeiro, aposta tanto na destruição do Estado Islâmico e na pressão sobre o Irão que não se pode dar ao luxo de ver o Qatar envolvido em problemas, tanto mais que o país alberga a base aérea de Al Udeid. Mas é de prever que a partir daqui o Qatar redescubra que o tamanho conta.

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