Ciganices

Esta história da dita cigana é um bom exemplo dos limites entre a alarvidade civilizacional e o excesso de politicamente correto. Usar uma etnia para denegrir alguém, acusando-a de desonestidade, como aconteceu, é pura boçalidade. Mas será que usar a palavra num sentido mais metafórico também é? É que eu às vezes sai-me um ciganão, granda cigano ou até mesmo uma ciganice - sempre como elogio. Sai, sai. Sobretudo com os meus filhos, que nunca viram um cigano. Minto. Uma vez, num fim de tarde já de noite, na Praça de Londres, as minhas filhas perguntaram-me porque é que aquelas duas freiras estavam a vender malas. Não eram freiras, eram ciganas. Então porque é que estão vestidas de freiras? As ciganas vestem-se assim porque... vestem. E as freiras não vendem malas Yves Saint Laurent (mas se vendessem, seriam de certeza YSL em homenagem ao santo padroeiro dos cozinheiros). No fundo, as miúdas já tinham visto freiras e não tinham visto ciganas, o que me deu que pensar, mais uma vez, na falta de ciganice.

A ciganice é uma espécie de esperteza de rua, um pragmatismo transacional, um charme com propósito, e isto são coisas que é difícil de ensinar e, portanto, é uma bênção quando os filhos já vêm com ela, e eu sei do que falo, que ciganice ciganice só dois dos seis é que têm, quatro puxam mais à mãe (acham que freiras vendem malas...). A ciganice é daquelas coisas que os pais podem criticar um bocadinho em público, mas devem ficar orgulhosos por dentro.

Isto vem a propósito do eurodeputado socialista Manuel dos Santos, que parece ter uma longa carreira de deputado europeu, mas que para a maioria dos portugueses, na qual me incluo, apenas se tornou conhecido nas últimas 48 horas pelas alarvidades que lhe valerão a expulsão do Partido e muito provavelmente do Parlamento Europeu. Costa foi rápido no gatilho a pedir a sua expulsão, por todas as razões ligadas ao que podemos chamar de mundo civilizado, mas também porque fez questão de ter o governo racialmente mais diversificado de sempre. E esse facto, nunca é demais repeti-lo, tem um valor intrínseco incalculável, como já tinha tido o facto de o anterior primeiro-ministro ter uma mulher negra, neste nosso país de brancos costumes que tem uma forma perigosa de racismo, que é o racista?-eu-não-sou-racista.

Tudo é ainda mais triste porque vem no contexto de uma pretensa disputa pela possível localização da Agência Europeia de Medicamentos no Porto, ou em Braga (!), e não em Lisboa. Uma novela decalcada da genial premonição há vinte anos de Herman e das Produções Fictícias com a série Expo"97, o enginheiro Passos de Ferreira, o explosivo Mega Ribeira (este homem não é do Norte, carago!) e a ideia de fazer a Expo no Porto, com um Tripanário, tudo envolto na mais completa paranoia e mitomania.

O PS tem na sua bancada parlamentar Pedro Bacelar de Vasconcelos, o primeiro em Portugal a dar a cara pelos ciganos quando era governador civil de Braga em 1996 (aliás, basta dar umas voltas hoje na blogosfera para ter uma ideia da popularidade de defender os ciganos há 20 anos), que é, muito expressivamente, presidente da comissão parlamentar de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias.

Olhando aos debates parlamentares dos últimos quase duzentos anos, é muito interessante ver como os ciganos passaram de um facto (em 1913, Afonso Costa interrompe um deputado que se queixava de haver enganos nas vendas de gado com um expressivo "Há de sempre haver ciganos") para um problema social a resolver a partir dos anos 1960. Em 1973, na Assembleia Nacional, há um discurso delicioso contra os festivais de verão em que se chama aos hippies "uma espécie de ciganos amadores, falsos ciganos de várias raças que a sociedade moderna parece levar em gosto". Há também o conto "A Cigana", do presidente Teixeira Gomes, uma das figuras mais fascinantes da República, mas como tem bolinha ficava mal num jornal de domingo.

Mas o melhor sobre ciganice veio em 1982, em agosto, a propósito da revisão constitucional, com Almeida Santos em debate com o deputado Veiga de Oliveira do PCP. O deputado comunista introduz o tema: "O senhor deputado Almeida Santos, como dizia, ao falar desta forma deste acordo de desconfiança mútua ilimitada entre a AD e o PS e o PS e a AD, faz-me pensar que não há acordo de regime, mas sim um negócio que eu poderia chamar de "negócios entre ciganos"." Almeida Santos não perde tempo: "Em todo o caso devo dizer-lhe, uma vez que o sr. deputado falou muito de negócios - até de "negócio de cigano", o que não me parece muito ofensivo porque normalmente os ciganos fazem bons negócios." E na réplica, mais discutível, Veiga de Oliveira: "No entanto, em relação ao acordo que fizeram, para falar mais uma vez em "negócio de ciganos", devo dizer, sr. deputado Almeida Santos, que, em primeiro lugar, os ciganos fazem bons negócios e o senhor não fez um bom negócio e, em segundo lugar, os ciganos nem por fazerem bons negócios deixam de ser ciganos."

Em 1991, Luís Filipe Madeira pergunta ao ministro das Obras Públicas se "conhece o governo a situação decorrente de negociações aciganadas (sem ofensa para a etnia cigana) conduzidas por agentes diretos ou indiretos da Junta Autónoma de Estradas e que redundam em tratamento desigual e injusto para os cidadãos mais desprotegidos, com desprestígio para o Estado e para a democracia". Já se pede desculpa, o mundo tinha começado a mudar.

Mas neste campo a mudança maior veio com a nomeação para o atual governo de Carlos Miguel, advogado, antigo presidente da Câmara de Torres Vedras, de etnia cigana, que me sucedeu como secretário de Estado da Administração Local. E devo a isto um dos melhores elogios que ouvi na altura: "O Costa sabe que, para lidar com os autarcas, mais cigano do que tu, só mesmo um cigano verdadeiro."

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