3,9 mil milhões de razões para uma conversa de café

Gostava de perceber o quadro mental de um primeiro-ministro que acha que a discussão de "situações em concreto" da banca dentro do governo equivale a uma "conversa de café". Falo, claro, de Pedro Passos Coelho. Na semana passada, respondendo a Assunção Cristas, Passos produziu esta pérola, no contexto de uma discussão sobre o que o seu governo fez (ou não) quanto ao BES: "O Conselho de Ministros e o governo não se substituíram aos reguladores, portanto não podem discutir situações em concreto, não fazem conversa de café. Mas isso não significa que o governo e o Conselho de Ministros não tivessem prestado uma atenção particular ao sistema financeiro."

Tradução: é normal que o governo discuta internamente o panorama geral do sistema financeiro, mas já é uma "conversa de café" discutir "situações em concreto". Isto resulta, no mínimo, de um quadro mental puramente ideológico (no caso, liberal): deixa-se o mercado funcionar livremente, colocando nas costas dos reguladores toda a responsabilidade - e dando-lhes, quando muito, as leis de que precisam.

Nada tenho contra atuações ideológicas (por oposição a atuações pragmáticas). Mas têm de ser sujeitas ao teste da realidade. No caso do sistema financeiro já sabíamos uma coisa (a partir do BPN): o colapso de um banco contém o risco potencial muito forte de atingir todos os cidadãos.

No BES, o Fundo de Resolução tomou conta do banco pondo lá 4,9 mil milhões de euros. Mil milhões foram avançados pela banca e os restantes 3,9 mil milhões emprestados pelo Estado. O Estado obteve a verba fazendo aquilo que em economês se chama "emitir dívida" (e em português "pedir dinheiro emprestado").

Assim, estes 3,9 mil milhões fazem agora parte do que o Estado tem de pagar em encargos da dívida. Quanto mais o Estado gasta em dívida, menos gasta com os cidadãos (fazendo, em suma, as mil e uma coisas que pode fazer, inclusive gastar o dinheiro mal gasto, um risco quando há dinheiro). Passos pode até dizer que um dia o Estado será ressarcido destes 3,9 mil milhões - mas até lá vão passar anos e mais anos (e, como se sabe, no longo prazo estaremos todos mortos).

Uma boa "conversa de café" sobre a "situação concreta" do BES poderia, pelo menos, ter consciencializado Passos Coelho de que este era um caso que tinha tudo para atingir os cidadãos todos. Talvez até alguém o pudesse então ter iluminado com a seguinte nota: zelar pelo interesse dos cidadãos é da competência dos governos. Aposto que isto, dito assim, não o escandalizaria.

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