O centro da Europa

Há semanas o Parlamento alemão aprovou o casamento entre pessoas do mesmo sexo, com o voto favorável de alguns deputados da CDU, apesar da recusa inicial e posterior resignação de Angela Merkel. Independentemente do que se pense sobre o assunto, há aqui um sinal que acumula com outros. Pela Europa fora os partidos de centro-direita têm vindo a integrar, com maior ou menor convicção e entusiasmo, as causas antigamente chamadas de fraturantes. O argumento liberal, que povoa os seus discursos económicos, refletiu-se nas questões sociais. Ou, mais pragmaticamente, saberão que os seus eleitores jovens não consideram esses temas de esquerda mas sim uma questão de modernidade. Seja por que for, a direita europeia (enfim, parte dela, porque a leste a situação é bem diferente), mantém-se firmemente de direita nas questões económicas e acomodou posições tradicionalmente mais à esquerda em questões sociais, e sobrevive eleitoralmente.

Pelo contrário, numa altura em que o centro-esquerda poderia ter capitalizado a desilusão com a globalização e a economia liberal, não foi isso que aconteceu. Deixando de lado Portugal, sobretudo com a estratégia da geringonça que lhe permitiu garantir o poder e condicionar à sua esquerda, vários partidos socialistas na Europa sentem a ameaça da extrema-esquerda e a tentação de a replicar nas causas e nos discursos, afastando-se da social-democracia clássica europeia. Como aconteceu em França, com os resultados conhecidos. Não é disso, porém, que normalmente é feita Bruxelas.

A política europeia foi, quase sempre, o resultado do consenso entre o partido popular (democratas-cristãos e conservadores) e os socialistas europeus. Da escolha dos líderes das instituições à distribuição dos portfólios na Comissão, o centro-esquerda e o centro-direita têm partilhado o poder e acordado no essencial. Com a anuência dos liberais que são de esquerda e de direita ao mesmo tempo. O presente, porém, ameaça este equilíbrio.

Se houvesse eleições europeias hoje, o Syriza colocaria alguém na Comissão, abrindo-a à GUE (o grupo político a que pertence e que inclui os comunistas e os bloquistas portugueses); os socialistas franceses seriam irrelevantes e os espanhóis, não se sabe. À direita, o que preocupa é a extrema no centro da Europa e a radicalização a leste.

Aos olhos dos eleitores, o Partido Popular Europeu e os Socialistas & Democratas não existem, mas em Bruxelas são eles que contam. A União Europeia foi sempre tema de confronto entre o centro-esquerda e direita de um lado e a extrema-esquerda e direita do outro, mas não está suficientemente interiorizada pelos europeus para resistir se o centro não fizer a sua parte. Sobretudo se não existir de um dos lados.

Do mesmo autor

Mais em Opinião

Conteúdo Patrocinado

Mais popular

  • no dn.pt
  • Opinião
Pub
Pub