Pobrais

Há uma foto de Pobrais, tirada há dez anos, daquelas para elogiar a terra, com legenda: "Vista de Pobrais." Num outeiro, casas cercadas por pinhal. O concelho é Pedrógrão Grande, e à luz das notícias recentes, a foto dá para anunciar um pesadelo: oh, oh... O Google Maps permite-nos descer até ao lugarejo, uma vintena de casas - as telhas ainda são laranja e há plástico nas estufas, o Google Maps demora a atualizar-se. Entre o que sabemos e as fotos do espaço, aconteceu um fim de semana de morte. O DN publicou um reportagem da agência Lusa sobre Pobrais. De Pobrais, depois. O repórter falou com Claudino, um dos que fugiram - nada como as tragédias para inventar ironias - quando a aldeia se viu envolta em chamas. Um terço dos habitantes de Pobrais, 11 pessoas, morreram sufocados e calcinados, quando os carros da fuga pararam na estrada. Mas voltemos ao Google Maps: Pobrais, pobre e pequenita, fica a três minutos da N236-1, estrada nacional, como o seu nome indica. As pessoas em fuga tinham alternativa à estrada nacional, podiam ir para Pedrógão Grande, via sinuosa e entre floresta, que naturalmente não foi a escolhida. Para a N236-1 a aldeia tinha, bizarria de rica, dois caminhos, curtos, asfaltados e bem sinalizados, como é o asfalto em época eleitoral. Os carros chegaram à estrada nacional, certamente com suspiro de alívio. Viraram para a esquerda, para Figueiró dos Vinhos. Logo souberam que era apressado, o suspiro. Claudino, virou para trás e foi para Castanheira de Pera. Temos o seu testemunho, os outros morreram.

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