Pedrógão, a quente

Há 16 anos, depois da tragédia de Entre-os-Rios, surgiram muitos psicólogos no local. Reconheço a utilidade, mas quis assinalar uma desproporção, tão portuguesa, entre certos especialistas. E lembrei que há profissões que permitem tornar outras profissões pontualmente desnecessárias. Escrevi, então: "Que pena a falta de engenheiros: tivessem existido a montante, não precisávamos de psicólogos a jusante." Nestes dias, tentei ler testemunhos de gente próxima do fogo de Pedrógão Grande, narrados por quem lá esteve, na forma superior de jornalismo, reportagem (que não é o que pratico aqui neste espaço de crónica) - mas pouco encontrei. Ao longo dos dois dias tive de me resignar mais com especialistas - bons sempre de ouvir mas não quando, também tão português, gostam de assacar culpas a quente. Houve até quem dissesse que aquela tragédia (aquela, dia 17, em Pedrógão Grande) era previsível. Se era previsível do tipo "Trump vai acabar mal", como tantas vezes já vaticinei, OK. Agora, anúncio do que ia acontecer - quando já se sabia, no sábado, das trovoadas secas, raios, ventos doidos e temperaturas infernais e em Pedrógão - fico à espera de saber se houve especialistas que alertaram a Proteção Civil para a previsível tragédia. Em Londres, vizinhos da torre Grenfell alertaram para a tragédia, antes, e enumeraram as causas - gente comum, não especialistas, mas bons a prever. Então, de um não especialista, eu: Pedrógão Grande? Que dor.

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