O par de nádegas apertado num vestido vermelho

O direito ao beijo público e ao álcool como motores da revolução são muito mais sabotadores da ordem instituída...

Acreditei numa única primavera árabe que, não por acaso, nem árabe era. E acreditei porque a primavera turca tinha um caderno de reclamações como deve ser. Os mais jovens queriam sentar-se nas esplanadas sobre o Bósforo a beijarem-se. E também, agora apoiados por mais velhos, queriam sentar-se num bar da Ponte Gálata e beber cerveja Efes ou anisete raki cortado com água gelada. Os verdadeiros avanços dos povos fazem-se com reivindicações substantivas reclamadas pela língua, esse órgão muscular e libertário. O direito ao falar livre, que usa o mesmo órgão, é importante, é, mas já acho isso mais conversa e menos eficaz. O direito ao beijo público e ao álcool como motores da revolução são muito mais sabotadores da ordem instituída e merecedora de ser derrubada, como tudo que proíbe essas soberbas invenções humanas.

Em 2013, o primeiro-ministro Recep Erdogan, arauto da islamização da sociedade turca, não se enganou ao continuar a tecer loas à democracia - afinal, esta, ou um arremedo dela, haveriam de levá--lo ao presidente que é hoje. Mas no que respeita às outras duas exigências benditas da língua, começou a persegui-las duramente. Os namorados não podiam sentar-se do mesmo lado da mesa nos cafés. E à cerveja, a bênção espiritual que o fundador da república turca (Kemal Ataturk, 1924) tinha tornado a bebida nacional, as novas autoridades contrapunham o ayran, insípida bebida sem álcool, saída do iogurte. Nas manifestações em Istambul e Ancara, para impedir as leis celeradas, as palavras de ordem eram festejadas por lábios trocados e pelo chocar de copos com espuma.

Por isso acreditei naquela específica primavera. Escrevi, então, alguns textos sobre o assunto (nas suas duas versões epicuristas) que, por serem textos ligeiros, não tiveram o sucesso internacional das Teses da Urgeiriça com que o grande educador Arnaldo de Matos (MRPP) resolveu recentemente o problema da natureza de classe da Revolução Bolchevique de 1917. Simples, roçando o simplório, dizia eu, então, comentando as fotos que as agências me mandavam de manifestantes nas pontes que atravessam o Corno Dourado: "Lindo." Que mais havia para dizer quando as coisas, como beijar torridamente ou beber uma cerveja fresca, são simples e fundas?

Acreditei que aquela revolução tinha pernas para andar - até com aquela bela insinuação, tão bizantina, de galgar continentes e juntar a Europa e a Ásia -, mas tenho de admitir que me derrotaram. Subestimei a outra convicção - contra os beijos e o álcool - que, apesar do seu gosto duvidoso, era tão profunda como a minha e a dos manifestantes turcos de 2013. Comecei por deixar de ouvir os manifestantes e passei a dar-me conta da progressão da carreira de Erdogan, que se fez presidente e, depois, transformou um golpe militar num contragolpe vitorioso.

E, distraído, como andamos todos os europeus, dediquei-me a olhar para aquela região como o Arnaldo de Matos voltou a debruçar-se, velhote, sobre a Grande Revolução Bolchevique. Ele, caracterizando-a, agora, como "capitalismo de Estado" e um embuste, ficando contentíssimo pela revolução que ele próprio fez de si: vai ter de tirar de todas as bandeiras, ao lado das quais posou, a careca do Lenine, o bigode do Estaline e o boné de Mao. Nem se dando conta de que outros marxistas, trotsquistas e socialistas libertários já tinham chegado à mesma conclusão que ele, há mais de meio século. É o que dá ser ser analista profundo: dá-se grandes voltas no túmulo, como cabe aos cadáveres. Eu, enredado também na complicação, atirei-me a fazer a geopolítica do Médio Oriente, a calcular a relação de forças entre sunitas e xiitas e a estudar a história desde a carga da brigada ligeira. Enfim, traindo a simplicidade.

Estava eu, aí, estudioso das grandes questões. Fiz um intervalo na noite de réveillon e com champanhe. E eis que uma estação televisiva me trouxe um especialista em questões internacionais para comentar o atentado na discoteca Reina, em Istambul, que entretanto acontecia. Ele tinha informações confidenciais: havia na discoteca uma reunião de islâmicos moderados. Iam chegando imagens. E vi uma das frequentadoras da discoteca a fugir, de vestido vermelho curto que apertava um par de nádegas - pareceu-me moderação a menos. Desliguei a televisão.

Li, depois, no jornal Le Monde que na discoteca Reina dançava-se e bebia-se. Quem havia de o dizer?! Os meus recentes estudos geoestratégicos sobre a região não me haviam prevenido sobre essa continuação de manifestações. O diário francês fez-me um apanhado dos jornais locais, dando-me a saber que na Turquia havia uma campanha, neste ano, contra as festas de fim do ano, o Natal e a Passagem do Ano, por não fazerem sentido num país muçulmano. "Pais Natais por todo o lado, nos centros comerciais, nos mercados, nas ruas, nos locais de trabalho e até no interior das casas onde se veem árvores de Natal", indignava-se o jornal Yeni Safak, pró-Erdogan. "Este é o nosso último aviso! Não festejem o réveillon", titulou o diário Milli Gazete, também pró-governamental. E na última sexta-feira de 2016, muitos imãs condenaram as festas nas suas prédicas, como haram, pecado.

Eu talvez tenha estado errado em 2013 sobre a primavera turca. Mas o abrir de 2017 iluminou-me sobre o essencial do que há para saber sobre a Turquia (e mais e mais): aqueles atentados são contra um modo de vida, o meu. Aquela gente, perseguida por um beijo ou por uma cerveja, ou por um vestido vermelho justo, são dos meus. Saber que há eu e os outros é o meu compromisso para este ano. Assim, eu sei que não traio os meus longínquos.

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