A revolução francesa prossegue

Um carro de museu, negro e de boca de sapo, no pátio do Palácio de Matignon. O primeiro-ministro Bernard Cazeneuve queria partir - simbolizando a velha política a ser substituída pela nova - nesse Citroën DS, o preferido do general De Gaulle. No Eliseu, aguardava-se o anúncio, às exatas 14.30, do novo primeiro-ministro. Mas só 23 minutos depois se conheceu nome do substituto de Cazeneuve: Édouard Philippe. O presidente Macron, que dissera de si "sou o mestre dos relógios", começa a sofrer dos efeitos da realidade: as entorses, que mais não seja nas horas, são inevitáveis. Logo a seguir, em Matignon, outro símbolo não cumprido: Cazeneuve teve de partir num Renault Talisman, o DS não deu garantias de viagem. Digamos assim: está encerrado o período das simbologias. Portanto, não concluir demasiado da juventude de Philippe (46 anos) e de ele não ser figura de proa da política francesa. Há que passar ao que conta, às relações de força. Jovem, o agora líder do governo foi rocardien, tendência centrista do PS (onde esteve também Manuel Valls, socialista e pró--Macron). Depois, Édouard Philippe tornou-se gaullista, dentro da corrente de Alain Juppé, a mais ao centro da direita francesa. Mais confiante da sua influência à esquerda, o presidente Macron lançou-se com Philippe na conquista à direita. A batalha está marcada para daqui a um mês, nas legislativas. E, símbolos à parte, não será cómodo como um DS, mas precisa de ser obra de relojoaria.

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