Este outro terrorismo

Estou de férias. Dias de praia até às oito, água cálida, cerejas, damascos, figos e conquilhas, ler nas piscinas que as marés, em ondas leves, escavam na areia.

Está calor e é bom. Uma amiga chega de Lisboa no sábado à tarde. Fez um desvio pelo Alentejo, conta, e perto de Beja começou a sentir objetos - paus, folhas, talvez pedras - a bater na chapa, um vento súbito, muito forte, em espiral, a abanar o carro, as árvores dos dois lados da estrada. "Parecia que estava num filme americano. Nunca tinha visto um tornado", diz. "Assustei-me. E, de repente, do nada, caiu uma chuva fortíssima. Muito estranho."

Tínhamos um jantar de anos, não pensámos mais nisso. É num post no Facebook, de outra amiga, que ficamos a saber que este aniversário vai passar a ser também o de uma tragédia. 19 mortos numa estrada em Figueiró dos Vinhos, diz o post. Numa estrada, a fugir ao fogo. Porquê, como, perguntamos.

De regresso a casa, ligamos a TV. Passamos de canal para canal, Twitter, Facebook, sites de jornais. Como, porquê. Vamos dormir às três da manhã, muita angústia, lágrimas e algumas irritações depois - as perguntas repetidas a cada autoridade ou governante sobre as mortes, os pormenores, as falhas, os erros, porquê, para quê?

Ainda estamos em guerra, diz a minha amiga: deixem acabar a guerra, falamos disso tudo no rescaldo, quando lá chegarmos.

Acordar para este número: 57. Não querer crer que possa aumentar, que seja possível maior horror que este. Saber da avó que quis salvar o neto de 4 anos e se fez à estrada, para morrerem ali, naquele lugar agora tão quieto. Os carros calcinados, a árvore tombada que os fez parar. O repórter a dizer "nunca vi nada tão mau".

"Se fosse de fogo aquele vento que apanhei, aquele tornado. Deve ter sido assim. Não dava tempo sequer para perceber", diz a minha amiga, a segurar a voz.

Gostamos das nossas estradas de campo, rodeadas de árvores. Gostamos de floresta, do cheiro das agulhas de pinheiro, do som que fazem as folhas e lenhas secas sob os pés nas caminhadas de verão. Mas ali, aquelas estradas, aquelas árvores, aquelas lenhas, folhas, pinhas, agulhas, foram uma emboscada. Um massacre. O verão que tanto amamos pode ser um massacre.

Agora a contagem já passou dos 60. Mais do que os 59 de Entre-os-Rios, a grande tragédia portuguesa deste século - até agora. Trinta na mesma estrada. talvez mais. Ninguém pode dizer. Ninguém sabe.

Ver e ouvir as pessoas que choram pelos que desconhecem se vivos ou mortos. Os que dizem "onde estão os bombeiros meu deus." (os bombeiros, como deus, não podem estar em todo o lado). O homem a quem morreu o genro naquela estrada agora tão quieta: "Como é que isto acontece em 2017." As mensagens da amiga que tem o irmão lá, agarrado à casa que não quer largar, o fogo a passar a vinte metros, sem eletricidade, sem rede de telemóvel. "Ontem em desespero disse-lhe que saísse de lá. Mas as pessoas morreram na estrada, teria ficado em enorme perigo." A jornalista que está em Pedrógão, e numa mensagem no Twitter se diz "cercada mas em segurança". O condutor de helicópteros com 15 anos de combate de fogos que num post de FB partilhado por alguém escreve que como este incêndio - incêndios, aliás - nunca viu nenhum, que ventos e nebulosidade assim nunca houve, que sentiu ali, no ar, muito perigo, e conclui: "Quando a mãe natureza quer, não há meios que cheguem." Tudo a parecer mentira.

Não saber o que fazer, o que dizer. O calor na praia e a água do mar iguais mas tão diferentes. Querer que chova. Querer que parem de tentar encontrar culpados, de falar em "responsabilidades políticas", em demissões, no que "devia ter sido feito". Há tempo para analisar e refletir. Há tempo para virem os peritos - os a sério e os outros - dar a tática para nunca mais arder nada, para as árvores estarem todas certas (há árvores que não ardem, sério?), as matas todas limpas a brilhar (as matas "limpas" são à prova de quarenta graus e de invernos secos?), tudo como deve ser.

Sempre que há incêndios ouvimos isso tudo. As pessoas que sabem tudo e como tudo poderia ser evitado, que falam de ordenamento e de todos os inumeráveis erros do passado, das monoculturas, da ausência de regras e leis ou das leis que há e ninguém cumpre, dos "sucessivos governos", dos "crimes ambientais", da proteção civil descoordenada. É mentira? Sim, temos problemas graves de ordenamento, de monocultura, de terrenos florestados sem quem os cuide, sabemos isso. Mas sabemos também isto: que a floresta arde. Em todo o lado da terra, em todos os países em que faz muito calor. E sabemos ou devemos saber que é da nossa natureza acreditar que podemos tudo. Que quando algo corre mal é porque alguém ou algo que depende de nós, pessoas, sociedades, governos, falhou. Mas não podemos, não é verdade. Há coisas maiores que nós, e por mais que queiramos aplacá-las, como a deuses em fúria, e à nossa dor e raiva, oferecendo-lhes o sacrifício de supostos culpados, é apenas estúpido. Ou, pior, oportunista. E sobretudo obsceno.

Vamos tentar não piorar isto, pode ser? Porque já assim é demasiado.

Do mesmo autor

Mais em Opinião

Conteúdo Patrocinado

Mais popular