Um dia teria de vir abaixo

O cinema Paris, o antigo cinema art déco sito na Rua Domingos Sequeira (sim, o tal do quadro do MNAA e dos pixels...) e desenhado em 1931 pelo sempre olvidado arquitecto Victor Piloto (autor, por exemplo, do prédio também déco da Praça de Entrecampos), há muito que tinha os dias contados, pelo que poderá muito bem ser desta vez (deu entrada na Câmara Municipal de Lisboa, a 7 de Agosto, um pedido de informação prévia, processo n.º 1510/EDI/2017) que verá a sua demolição aprovada, para a subsequente construção de um edifício de oito pisos, de construção pura e dura with a view (para a basílica e para o Jardim da Estrela e, quem sabe, para o rio), em que o "rebuçado" dado à população será a libertação de espaço para "ligação pedonal ao interior do quarteirão" a tardoz, imagino.

Efectivamente, reside no dito quarteirão (com entrada também pela Rua da Estrela) muita da razão prática desta nova investida contra aquele que chegou a ser o cinema mais luxuoso de Lisboa, no seu auge com capacidade para 865 espectadores, forrado a confortáveis cadeiras, em plateia, balcão e camarotes, e decorado a preceito com pinturas de Jorge de Sousa aos baixos-relevos de Simões de Almeida (sobrinho) no foyer, e de Paulo-Guilherme na "sala de fumo" (resultando da campanha de obras dos anos 1950).

Trata-se, efectivamente, de um quarteirão suculento, urbanisticamente falando, em que as taxas a receber e os fogos a rentabilizar não se podem comparar com um Paris à cunha quanto mais com ele abandonado. É ir lá e imaginar o que (d)ali dá.

Verdade seja dita que a primeira machadada no futuro do Paris, que haveria de encerrar em 1981, tinha sido dada pouco tempo antes pelo tenente-coronel Luís Silva, celebérrimo comandante da Lusomundo (então dona do cinema), quando decidiu desinvestir na sala e privilegiar o multiplex liliputiano no cento comercial das Amoreiras, que então dava os primeiros passos. Depois, seguiram-se 10, 15, 20, 25, 30, 35 anos em que nada aconteceu senão abandono (propositado e descarado, porque sem coimas nem posse administrativa do imóvel ou recurso a obras coercivas), vandalismo (estimulado), roubo (idem) e muito "diz-se diz-se".

Disse-se, por exemplo, que João Soares só tinha olhos para o Europa, lá mais acima, e que para o Paris até tentou negociar a abertura de uma loja do Lidl (tive essa informação do próprio gestor da rede, por alturas de 2000), então a dar os primeiros passos em Lisboa (teria sido bem melhor, talvez, já que ficaria, quem sabe, como o Royal Cine, da Graça).

De concreto, concreto, é que por esses idos de finais de 1990 houve uma proposta do então Coral Lisboa Cantat, feita, ao que se sabe, ao IPPAR e à CML, para ali estabelecer a sua oficina vocal, proposta que não saiu do campo das intenções. Pouco tempo depois, apareceu uma empreendedora, que ali queria montar um hotel com motivos alusivos ao cinema, qualquer coisa como quartos baptizados com nomes de actores (risos), mas que também foi para o caixote do lixo.

Disse-se, também, que a CML em 2005, com Santana Lopes, terá tentado a expropriação do cinema, mas que esta nunca chegou a sê-lo porque, entretanto, se descobriu marosca da grande na relação dos proprietários com a CML, tendo o assunto chegado mesmo a vias de facto com a famosa sindicância de 2007, a tal que haveria de parir um rato.

Chegados aqui, e fosse como fosse, a verdade é que nem CML nem junta de freguesia (Lapa, primeiro, Estrela, depois), muito menos a SEC/MC, nem nenhum agente cultural que fosse (nem um) nem os moradores da zona (nunca percebi por que tantos (?) quiseram tudo para o Europa para depois ficarem a chuchar no dedo com uma salita no novo edifício homónimo, e pelo Paris nada) mexeu um dedo que fosse para que o Paris fosse viável de facto e Lisboa não perdesse mais uma sala histórica, das que quase já não tem.

E pronto, assim se vai o Paris, cujas boas memórias perdurarão nos sortudos que lá tiverem assistido a cinema, e, quando estes desaparecerem, aos curiosos dos registos de hemeroteca e a todo um mundo virtual que a net preserva. Virtualmente.

Fundador do Fórum Cidadania Lx

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

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