4x2=VI República

Este domingo fecha um ciclo eleitoral intenso para os franceses. Emmanuel Macron não tem culpa do cansaço dos eleitores, não participou nas primárias que deram tão mau resultado, tanto para a esquerda como para a direita. Quatro eleições, cada uma de duas voltas, é mais do que qualquer eleitor aceita, com consequência sobre a abstenção, altíssima nesta última ronda legislativa.

Fechamos esta indigestão democrática. Abrimos o pano sobre uma França que continua muito dividida, confusa, mas que tem pelo menos um presidente jovem, capaz e europeísta. Vai ter todo o poder com ele: o da Presidência, um Parlamento às ordens, uma imprensa rendida, o poder económico satisfeito e tranquilo. A tal VI República ou quase, mas invertida: França passa a ter um regime mais presidencial do que nunca, a Constituição que quis um Parlamento capaz de equilibrar o presidente foi rejeitada nas urnas pela macromania dos eleitores.

Agora, marchamos, mas a correr. Os franceses querem reformas? Têm de estar preparados para lutar por elas contra o poder de obstrução dos sindicatos e da extrema-esquerda. As empresas estão doentes, as maiores preferem investir fora de França. Hollande, o presidente que "não gostava dos banqueiros", até as forçou a enviar as suas sedes para fora de França pela política fiscal suicidária que implementou. O brexit é uma excelente oportunidade para Paris, para voltar a atrair as sedes de grandes grupos. Não pode ser desperdiçada com dúvidas relativamente à estabilidade fiscal ou laboral.

Queremos Europa? Se sim, então toca a trabalhar com a Merkel, com o Junker, com os países do Sul órfãos da política voluntarista de Sarkozy, para finalmente repor em Marcha uma Europa progressista, solidária, justa, mas também competitiva e forte nos seus valores. Precisamos de pensar no Mediterrâneo, na nossa relação com o Próximo Oriente e África, os franceses têm de pôr o seu conhecimento profundo destas regiões ao serviço da Europa para que sejam encontradas vias verdadeiras e sustentáveis para desenvolver e dar futuro aos nossos parceiros. Os empresários não querem investir em França? Toca a perceber porquê. O novo poder deve encontrar soluções verdadeiras e dar confiança a quem investe e cria emprego.

Em França, existe hoje o risco de que as novas gerações tenham uma vida pior do que a dos seus pais e avós. É certo que em algumas dimensões o Estado e os serviços públicos funcionavam melhor no passado. Mas o passado também não era perfeito. É fundamental garantir qualidade na escola, na saúde, na habitação, no acompanhamento da idade. E não é tanto uma questão de dinheiro mas uma questão de sentido de responsabilidade, critério de gestão e fiscalização, com um Estado que deve ser exigente e ambicioso, cuidadoso investidor do dinheiro dos contribuintes.

Os jovens não se identificam com os valores da França, fruto de um programa educativo minado pela ideologia esquerdista mais retrógrada? Toca a dar futuro e confiança às pessoas, fomentar o espírito de ambição e desafio, voltar a destacar quem puxa para a frente como exemplos para os demais, seja na escola, nas artes, no desporto ou na economia. A campanha eleitoral não permitiu um debate inteligente sobre os valores que os franceses partilham: passamos o nosso tempo fixados em matérias fúteis. Os debates não serviram para esclarecer os franceses relativamente ao que realmente os deve unir. Contudo, os franceses escolheram a continuação do seu destino na Europa, num país aberto ao mundo. Esperamos que Emmanuel Macron saiba reunir os franceses à volta de uma visão clara do futuro da sociedade francesa, que tira das suas raízes milenares na Europa a força para criar e empreender à escala do novo mundo. Para muitos, França é sinónimo de liberdade, de progresso inovador e de solidariedade. Devemos primeiro demonstrar que estes valores vivem em França, entre todos os franceses.

A França é um grande país, tem milhares de empresas e pessoas formidáveis, reconhecidas em qualquer lugar do mundo pela sua criatividade, competência ou empenho. Vamos dar enfoque a estas pessoas, dar-lhes novamente vontade de trabalhar, criar e empreender, libertos das ideologias que os franceses rejeitaram massivamente nas urnas. Se queremos que este penoso ciclo eleitoral traga algum resultado positivo, não podemos deixar a expressão dos franceses ser novamente desfeita na rua.

Os partidos de esquerda que falam sempre em democracia devem primeiro respeitá-la, aceitando as mudanças que daí decorrem.

Representante do partido os Republicanos em Portugal

Dos convidados

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