Rebentou a bolha

Ontem a televisão russa anunciava o que estava a acontecer em Bruxelas com uma frase mortífera: "Mesmo debaixo do nariz da NATO". Em Bruxelas estão sediadas as grandes instituições ocidentais e o maior centro de "formação" de jihadistas europeus do ISIS em termos per capita. Em dezembro passado, quando estive na NATO pela última vez, um dos temas que mais animavam os debates em que participei era a nova sede da Aliança e as contas de mercearia sobre quem pagava o quê. Em abril último, quando regressei a Bruxelas para participar na discussão sobre a nova estratégia de segurança da UE, a cidade estava bloqueada por um Conselho Europeu extraordinário sobre refugiados. Às tantas, perguntei a um militar na rua como saía daquele novelo para chegar a horas ao aeroporto, ao que ele me respondeu: "Não faço ideia, sou polaco." Se tivermos em conta que há mais ou menos um operacional dos serviços de informações por cada jihadista referenciado, percebemos o nível da bolha belga. Acrescentemos seis comandos policiais distintos e 19 comunas com autonomia administrativa só na região de Bruxelas e talvez faça algum sentido porque é que um bairro tão central como Molenbeek se tornou no paraíso operacional do jihadismo encantado do ISIS no coração da Europa. Admito o simplismo da análise, haverá razões com outra profundidade que merecem atenção, mas só quem vive dentro de uma bolha burocrática precisa de expor à bruta e contra o tempo um plano gigantesco de paralisação de uma capital como forma de contraterrorismo urbano. Tendo em conta os resultados - apenas 21 detidos, nenhum armamento confiscado e o cabecilha de Paris a monte -, mantenho a minha tese: o ISIS está neste momento a celebrar o apagão belga, o nível da coordenação policial europeia, e sabe hoje mais sobre os planos de contingência de Bruxelas do que há uma semana. Temos muito a melhorar.

Do mesmo autor

Mais em Opinião

Conteúdo Patrocinado

Mais popular