A China no Djibouti

Para mais pequeno país africano, o Djibouti consegue ter espaço para sete presenças militares estrangeiras em permanência, seja em bases próprias ou em missões internacionais, como é o caso dos EUA, Japão, França, Itália, Espanha e, recentemente, Arábia Saudita e China. É obra. E dão certamente rendas milionárias. Aliás, o Djibouti é o único país do mundo com bases militares permanentes dos EUA e da China, no caso do primeiro a maior que tem em África, e do segundo a única que tem fora do seu território. E há sinais de que Rússia e Índia também estão na corrida. Mais uma vez não é para todos. Qual é, então, o valor estratégico do Djibouti, reconhecido por tantos interessados de peso?

A primeira razão é a posição geográfica singular no estreito Bab el-Mandeb, que liga o golfo de Áden ao mar Vermelho, o canal privilegiado para rumar ao Suez, por onde passa 10% da circulação de petróleo e 20% do comércio mundiais. Ou seja, é um ponto nevrálgico entre o Índico e o Mediterrânico, fundamental para o Japão e para a China, cuja rota preferencial de comércio com a UE é o Suez. É precisamente este cordão geográfico que vai do Corno de África passando pela península Arábica, o planalto iraniano, o subcontinente indiano, até ao arquipélago indonésio, que pode ser identificado por um diálogo tenso entre o Ocidente e as civilizações islâmicas, os gânglios das rotas globais energéticas, e uma inexorável emergência da Índia e da China.

Ao longo do corrente século, as longas e complexas guerras territoriais (Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria) esconderam a importância das faixas costeiras, através de rotas que perfazem 90% do comércio global. É nas zonas litorais que o crescimento demográfico, as alterações climáticas, a elevação dos níveis do mar, a escassez de água potável e os extremismos políticos adquirem um rosto vividamente geográfico, num arco que abrange o mar Vermelho, o mar Arábico, o golfo de Bengala e os mares de Java e do Sul da China. Nestes situam-se atualmente os Estados violentos e famintos do Corno de África, os desafios geopolíticos de Iraque e Irão, o caldeirão fundamentalista fissurado do Paquistão, a Índia emergente e os seus vizinhos periclitantes (Sri Lanka e Bangladesh), a Birmânia em transformação (sobre a qual concorrem a China, a Índia e os EUA) e a Tailândia, onde a China quer financiar o canal Kra, ligando o golfo da Tailândia ao mar de Andaman, afetando a balança de poderes asiática a seu favor e contornando o congestionado estreito de Malaca, já para não mencionar o investimento chinês no estratégico porto de Gwadar, no Paquistão.

No Índico também se encontram as principais rotas de transporte de petróleo, como os pontos de estrangulamento da navegação do comércio mundial (Bab el-Mandeb, Ormuz e Malaca). Quarenta por cento dos hidrocarbonetos passam pelo estreito de Ormuz e 50% da capacidade das frotas mercantes do mundo circula pelo estreito de Malaca, tornando o Índico o mais ocupado ponto interestadual do globo. Além disso, conta com 70% do tráfego de produtos petrolíferos para todo o mundo. As rotas dos petroleiros entre o golfo Pérsico e a Ásia Meridional e Oriental está a ficar congestionada à medida que as economias chinesa e indiana precisam de satisfazer as aspirações dos milhões que entraram na classe média nos últimos anos. Como a procura de energia mundial crescerá 50% até 2030 e mais de metade desse consumo virá da Índia e da China, percebemos o potencial de sobre-esgotamento destas rotas tradicionais.

Mas voltemos ao Djibouti. Em segundo lugar, o pequeno país é uma bolsa de estabilidade numa região sofrida e arrasada por várias ameaças. Isso é importante quando se quer transferir dez mil homens (no caso da China) ou manter quase cinco mil (no caso dos EUA), sem correr o risco de perder vidas e gastar dinheiro sem nexo. Isso seria prejudicial ao estatuto rigoroso que marca o perfil da atual administração chinesa, além de expor uma vulnerabilidade prática posterior a uma decisão estratégica tão cuidadosamente trabalhada. Para a China, em particular, é ainda relevante por permitir resgatar de forma rápida qualquer cidadão que hoje está a trabalhar em África e que, na conceção de Pequim, é um prolongamento vital da sua política externa.

Além disso, em função desse quadro de estabilidade, o Djibouti é um dos pontos nevrálgicos da rede ferroviária africana construída pela China e que liga esse minúsculo país costeiro à Etiópia (nova linha inaugurada no início deste ano), com intenções de seguir pelo Quénia, Sudão do Sul, Uganda, Ruanda, Burundi, Tanzânia e Zâmbia. Desta forma, toda a região oriental africana ficaria ligada e sob, de uma forma ou de outra, ascendente chinês. Isto é importante na expansão comercial, no acesso a recursos naturais, na ligação entre vias terrestres e importantes portos (Lamu, no Quénia), também com pipelines (Sudão do Sul e Etiópia) e na consolidação de uma China global, tão silenciosa como inteligente. Se recordarmos que na última década e meia a China investiu quase cem mil milhões de dólares em mais de mil e quinhentos projetos de infraestruturas africanas e que irá reforçar essa quota através de uma grande estratégia como a Nova Rota da Seda, com capacidade para injetar mais 200 mil milhões de dólares nos próximos dez anos, percebemos que isto não é a brincar. A China é a única das grandes potências com uma grande estratégia internacionalista em curso.

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