Hipócritas e falsos moralistas

Um membro do governo não deve aceitar convites de empresas privadas para ir ver jogos de futebol. Seja da seleção ou de um clube. Primeiro porque não devia ser preciso. Apoiar uma equipa nacional, seja a seleção A ou uma comitiva nos Jogos Olímpicos, é uma obrigação de qualquer governo e deve ser custeado pelo Estado. Apoiar um clube é uma opção de cada um, logo, deve ser custeado por cada um.

Nenhuma empresa privada convida um membro do governo para ir ao futebol sem, com isso, ficar com um "crédito" futuro. Mesmo que esse "crédito" venha a revelar-se incobrável. E, por isso, sim, do ponto de vista do princípio da transparência, um membro do governo deve resguardar-se deste tipo de situações.

Porque é que isto é tema em Portugal? Pelo miserabilismo a que chegámos. É a mesma e eterna discussão dos "políticos que ganham muito dinheiro com a política". Do "devíamos ter menos deputados". Do "são todos iguais e só querem é tacho". É o país que se reinventou nas redes sociais e encontrou ali um ninho perfeito para incoerente e cobardemente atirar atoardas a torto e a direito, achando, com isso, que está a participar democraticamente na vida do país. A degradação das condições na política tem, como consequência, a menor qualidade dos políticos. Pior: a política passou a ser muitas vezes um trampolim para outros voos, um meio para atingir um fim.

Sou daqueles que acreditam que a consciência de cada um - a boa consciência - deve ser a primeira de todas as regras. E a profissão que tenho obriga-me a isso, a guiar-me não só pelo código deontológico, mas acima de tudo pela minha consciência. O que se passa na política não é muito diferente do que se passa no jornalismo. Porque é que hoje há jornalistas a viajar a convite de empresas privadas? Porque os órgãos de comunicação social deixaram de ter capacidade financeira para viajar em trabalho. Porque ir ao fundo da rua já é caro, quanto mais ir ao fim do mundo. Porque é que isso acontece? Porque as pessoas deixaram de valorizar o jornalismo e não estão dispostas a pagá-lo. O mesmo acontece com a política: deixou de ser valorizada, passou a ser ridicularizada, e por isso chegou ao miserabilismo que temos hoje. O assunto merece reflexão mais profunda, seguramente, mas políticos e jornalistas parecem estar ainda em negação.

Onde é que começa a hipocrisia e o falso moralismo? No próprio governo, que começou por não ver nada de errado nas viagens feitas pelos secretários de Estado, mas, para responder a uma sociedade de dedo em riste, decidiu fazer um código de conduta absurdo que estipula um teto de 150 euros para "presentes" que um membro do governo pode receber. Pedro Nuno Santos justificava-se na TSF com uma mudança de paradigma na sociedade portuguesa. O que antes era aceite como normal deixou de o ser. E, por isso, o governo vai a correr criar um conjunto de regras só para ficar bem na fotografia e para poder, no futuro, usar essas regras como bandeiras de transparência. A hipocrisia está em partidos da oposição que, quando estiveram no poder cometeram exatamente os mesmos "crimes", mas agora falam do alto do pedestal, na expectativa de angariarem mais uns votos.

Depois há os falsos moralistas. Na política e no jornalismo. Os que, sem qualquer pudor, pegam no telefone e ligam para as empresas a pedir bilhetes para concertos e jogos de futebol, mas depois vêm escrever e debitar grandes teses morais sobre o que os políticos podem e devem fazer. Os que ficam chateados quando não são convidados para alguma coisa, mas aos olhos da opinião pública querem ficar como os defensores da moral e do povo. Os que já aceitaram vender a alma ao diabo várias vezes, mas continuam a cultivar a imagem de imaculados, como se nunca tivessem viajado em primeira classe e ficado em hotéis 5 estrelas, tudo pago pela empresa que convidou. Foram todos em trabalho. "Cultivar fontes" ou fazer um "pequeno apontamento de reportagem".

A sério que é este o país que quer?

PS - Só para lembrar que passa hoje um mês desde a tragédia de Pedrógão Grande. Só para lembrar que morreram 64 pessoas. Só para lembrar que houve famílias que perderam tudo. Só para lembrar que, até agora, ninguém percebeu o que falhou e quem é responsável.

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