O homem e o vestido da irmã. A mulher que nunca mais andou de comboio

Nunca será demasiado dizer que nunca mais, mesmo se sabemos que existem o Ruanda, o Camboja, os Balcãs, e tantas valas cheias de corpos perdidos

Há um momento em que ele está a dobrar e arrumar roupas e percebe que tem nas mãos o vestido da irmã mais nova. Mostra-o ao homem ao lado e ele comove-se por um instante mas depressa retoma o trabalho. Estão os dois em Treblinka, a tratar do que sobrou das centenas de pessoas que com eles tinham chegado no comboio do dia anterior. Levava Anna pela mão mas foram separados, homens para um lado, mulheres para o outro. Ele era forte e enérgico, recebeu ordens para ficar de lado, longe das filas que seguiram para as câmaras de gás.

Este é um dos poucos momentos em que algo poderia tremer no homem que relata, sistemático, o tempo vivido no campo de extermínio. Ouvimos, na voz de um ator russo, trechos do que o polaco Chil Rajchman escreveu, entrecruzado por frases de Marceline Loridan-Ivens , sobrevivente de Auschwitz-Birkenau e Theresienstadt. As imagens têm sempre comboios, o interior, as paisagens majestosas, as breves paragens em pequenas estações. Lá dentro, rostos e corpos desfocados, o som de fundo de um comboio em movimento.

São noventa e seis minutos a conter a respiração, a sentir um mal-estar que o próprio realizador confessará no final. É Treblinka, o filme de Sérgio Tréfaut, que já chegou às salas de cinema e que vi na sessão de antestreia. Estava anunciado que Sérgio e Maria Flor Pedroso conversariam no palco no fim do filme. Como falar sobre aquilo minutos depois? Como falar agora? Como falar em qualquer momento sem cair no cliché de reconhecer que é indizível?

O filme começou por ser a história de Marceline, cineasta e viúva do realizador holandês Joris Ivens. Sérgio conta que o projeto teve muitas hesitações e recuos, muitas conversas com esta mulher pequenina que foi a maior amiga de Simone Veil - gémeas contraditórias, como ela própria descreve a amizade iniciada no comboio para o campo de concentração. Pelo meio apareceu o livro autobiográfico de Chil Rajchman, publicado em 2011, sete anos após a morte do autor que tinha deixado a Europa pelo Uruguai. Por que é que ele conta? Talvez a pergunta seja outra: por que é que ele sobreviveu se não para poder contar?

Marceline e Chil, duas vidas que não se cruzaram na realidade, mas que Sérgio traz em paralelo para o filme - a melhor obra portuguesa do IndieLisboa. Isabel Ruth dá corpo a Marceline, com a voz de Nina Guerra, e diz que detesta o filme. Mas nó ficamos agarrados à sua imagem, ao seu lento gesto de fumar, à sua expressão fechada, às suas mãos desenhando o desamparo no vidro do comboio. Kiril Kashlikov é o fantasma de Chil, corpo jovem despido de toda a humanidade, contando a história como se escrevesse um relatório, texto descarnado, cru.

Por que continuamos a precisar de conhecer o horror, se já sabemos como foi, quando foi, os números sinistros, os pormenores escabrosos? E para esta pergunta tenho resposta. Porque nunca será demasiado dizer que nunca mais, mesmo se sabemos que existem o Ruanda, o Camboja, e aqui mesmo ao lado os Balcãs, e tantas valas cheias de corpos perdidos. Nunca mais um estado inteiro feito fábrica de morte e de guerra, a contabilizar organizadamente o extermínio.

Simone Veil estranhou, no regresso a Paris - o número 78651 tatuado no braço - que ninguém quisesse falar sobre o que tinha acontecido. Ela queria contar, ao mesmo tempo que desejava que a França e a Alemanha se entendessem na construção pacífica da Europa. Marceline, número 78750, anos depois da libertação, cruzou-se na rua com Simone. Tinham sido separadas na confusão dos campos e, agora que a vida vencera a morte, retomaram a amizade que lhes tinha dado forças em Auschwitz. Sempre que se encontravam a conversa ia parar "àquilo", tão ligadas que o marido de Simone se sentia posto de lado. Contraditórias: uma comunista, a outra de direita.

Marceline nunca mais conseguiu andar de comboio, Chil refugiou-se no Uruguai e escondeu as memórias num volume que os filhos encontraram quando arrumaram a casa. Os noventa e seis minutos de Treblinka são mais uma garantia de que não serão esquecidos, de que sobreviveram por todos nós.

Do mesmo autor

Mais em Opinião

Conteúdo Patrocinado

Mais popular

  • no dn.pt
  • Opinião
Pub
Pub