A casa dos três mil caracóis no jardim de Sophia

Era uma vez um jardim maravilhoso, cheio de grandes tílias, bétulas, carvalhos, magnólias e plátanos." Assim começa O rapaz de bronze, e assim começa também a viagem ao Jardim Botânico do Porto, em cuja casa se encontra um segredo que parece ter sido inventado por Sophia. Chama-se Galeria da Biodiversidade e é como se fossemos convidados para a festa das flores na Clareira dos Plátanos, como Florinda sentada num vaso no meio do lago.

Como todas as histórias de Sophia, também esta é exemplar, nos diálogos das personagens e no desenrolar da pequena aventura. Passados mais de 50 anos sobre a primeira edição, o que se celebra agora no jardim maravilhoso - onde ela brincou em criança com o primo Ruben A. - é esse milagre da natureza que é a diversidade. Aplico a palavra milagre sabendo que há uma complexa (simples?) explicação para a evolução das diferenças entre as quarenta famílias de flores que dançam numa noite de lua cheia contada no livro. A minha visita foi em pleno verão, num dia quente e sem aquele espetáculo que a primavera certamente é ali, mas as flores de nenúfar que encontrei nos lagos e a altura desmedida da sequoia chegaram para me maravilhar.

A nova galeria foi inaugurada há pouco mais de um mês pela Universidade do Porto - é um dos polos do Museu de História Natural e Ciência e faz parte do Ciência Viva - e ainda não está completa, pelo que a entrada permanece gratuita. Lá está no átrio o esqueleto gigante de uma baleia, como se fosse o resto do navio de Hans do conto Saga, das Histórias da Terra e do Mar. Atenção a um pormenor no parapeito da galeria: cuidado com o minúsculo esqueleto, tão parecido com o outro mamífero que se estende por 15 metros.

A mesma noção de "espécie" e de famílias está ilustrada em dois grandes cubos de luz espetaculares: um com ovos de diferentes origens, tamanhos, cores; o outro com 400 miniaturas de cães, todos brancos e do mesmo tamanho como se fosse preciso apenas vermos as diferenças das formas - e percebermos que todos eles descendem do lobo.

Fui ali parar a conselho de um amigo que achou imprescindível a visita. "Tem de ir ver aquilo", disse-me, e obedeci porque nunca da sua boca me tinham chegado indicações que não fossem para cumprir. E ali estava eu, acabada de sair de um táxi cujo condutor desconhecia totalmente o novo "museu". "Deve ser daquelas coisas onde ninguém aqui do Porto vai", comentara ele com desdém quando lhe pedi que me levasse. Senti-me vingada quando parámos em frente ao portão, em torno do qual está visivelmente sinalizada a existência da galeria e do jardim, e vimos chegar várias famílias na mesma direção. Acho que o taxista vai passar a indicar a morada a outras pessoas, e certamente aos muitos (muitíssimos) turistas que deambulam pelas ruas do Porto. Espero mesmo que um dia espreite o jardim.

Valeu muito a pena seguir o conselho do meu amigo. O calor da tarde decidiu por mim sobre onde devia ir primeiro. Subi os degraus da casa, pintada de cor de borras de vinho, como manda a história. Tal como eu, os outros visitantes hesitavam, não conheciam os caminhos, mas bastava abrir os olhos à descoberta. Uau!

O esqueleto da baleia é o primeiro grande impacto, que se repete quando subimos ao primeiro andar e o vemos de cima, mas há muito mais. Podiam dizer-nos assim: a biodiversidade é muito importante e tal. Mas a forma como nos dizem isso é inovadora, criativa, como se a imaginação de Sophia tivesse contaminado os cientistas que conceberam a exposição. O que mais me espantou foi a sala onde está escondida uma paisagem: uma casa, árvores, um cenário simples. A pergunta é: como veem isto os animais? A aranha, a vaca, a coruja, a abelha, a cobra, o falcão? Podíamos chamar metáfora a isto: todos veem imagens diferentes, e bem diferentes da nossa.

"Quando tu vires uma coisa acredita nela, mesmo que todos te digam que não é verdade", diz o rapaz de bronze à menina pouco antes de ela adormecer. Por exemplo: vê aqueles três mil caracóis, todos da mesma espécie, e repara como são todos maravilhosamente diferentes. Ou então lê ou ouve os poemas de Sophia, num livro sobre a mesa ou na gravação com a voz de Ana Luísa Amaral.

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