Votar com o passaporte

Na semana passada, o empregado de mesa de um restaurante de topo em Huntington Beach, perto de Los Angeles, pediu a duas clientes uma prova de residência legal antes de as começar a servir. Apesar de serem hispânicas, ambas nasceram no país e ficaram atónitas com o pedido; queixaram-se ao gerente, levaram a história para as redes sociais e o empregado acabou por ser demitido. Foi um caso isolado numa Califórnia normalmente tolerante e liberal. Mas o que lhe terá passado pela cabeça para achar que tinha o direito de questionar duas clientes sobre os seus papéis é mais profundo do que racismo; é a sensação de agora poder assumi-lo. A acidez política chegou à indústria dos serviços, em que os norte-americanos são excelentes. E se elas fossem turistas? Alguém reagiria bem a uma pergunta destas?

"Naquele momento, detestei a América. Detestei o país inteiro", escrevera Mem Fox algumas semanas antes no The Guardian. A autora australiana de livros infantis contou assim a saga da sua última visita aos Estados Unidos, em que foi detida no aeroporto de Los Angeles, a caminho de uma conferência, e tratada com uma aversão que a deixou a tremer do alto dos seus 71 anos. Depois desta 117.ª viagem ao país, prometeu não voltar. Não está sozinha. A retórica sonante da "América primeiro" e a perceção da hostilidade para com os estrangeiros já está a ter efeitos na indústria do turismo.

Durante o mês de janeiro, as visitas internacionais aos Estados Unidos cresceram 7,8% e bateram máximos de dois anos, segundo o mais recente Travel Trends Index da U.S. Travel Association. A tendência ascendente teve, no entanto, uma travagem brusca após a tomada de posse de Donald Trump e da ordem executiva que suspendeu a entrada de refugiados e cidadãos provenientes de sete países de maioria muçulmana. A cidade de Nova Iorque reviu em baixa as previsões de turistas para 2017, prevendo agora perder cerca de 300 mil visitantes. A Global Business Travel Association publicou um relatório mostrando que 45% dos profissionais de viagens europeus estão menos inclinados para marcar eventos nos Estados Unidos. Os analistas de viagens da Forward Keys notaram uma quebra de 6,5% nas reservas efetivas e o site de buscas Hopper registou uma derrapagem de 17% nas pesquisas de voos para o país a seguir à ordem. Os dados da empresa mostram que a quebra aconteceu em 103 de 122 países analisados, e foi maior entre os turistas chineses (46%), com recuos significativos também de visitantes irlandeses (32%) e mexicanos (23%). Só houve uma exceção: as buscas de voos para a América por consumidores russos dispararam 66%, um aumento sem precedentes.

Ainda é cedo para perceber se este é um impacto duradouro ou momentâneo, provocado pelo ciclo noticioso negativo que mostrou caos nos aeroportos norte-americanos e muitos relatos semelhantes ao de Mem Fox. No entanto, as perspetivas não são positivas. Os países vendem--se como marcas na hora de atrair turistas, como bem se sabe em Portugal. Quem vai de viagem não quer arriscar-se a passar três horas retido na fronteira, não quer dar as informações da sua conta do Facebook, não quer que lhe perguntem a filiação política, não quer ouvir rosnar "volta para a tua terra" se tiver um tom de pele mais escuro.

A indústria do turismo vale 2,1 biliões de dólares - assim mesmo, biliões - e emprega 90 mil norte-americanos. A consultora Tourism Economics prevê que os Estados Unidos percam 6,3 milhões de visitas até ao final de 2018, o equivalente a 10,8 mil milhões de dólares de despesas - naquilo a que chama de "efeito Trump." Os turistas vindos do estrangeiro - foram 78 milhões em 2015 - gastam quatro vezes mais do que os turistas domésticos. Não é coisa pouca.

Dirão os críticos que estas reticências súbitas em viajar para os Estados Unidos são histerias liberais, boicotes dos flocos de neve, uma birra que passará num instante. Até dou isso de barato, embora achando curiosa esta dualidade americana, que tanto grita com quem não é daqui como grita com quem não quer cá vir. Os turistas votam com os passaportes tanto quanto os consumidores americanos votam com as suas carteiras, quando decidem boicotar farpelas da Ivanka ou empresas que se estão a aconchegar à nova administração. Para lá dos slogans e dos arraiais de campanha, há uma economia real que não se compadece com factos alternativos. Orgulhosamente sós funciona apenas no papel bolorento do saudosismo seletivo. Como se diz por estes lados, não dá para guardar o bolo e ao mesmo tempo comê-lo.

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