A conjuntura anárquica

A conjuntura torna evidente, como resultado de fatores mal conhecidos, uma anarquia de desgoverno mundial, resistente a qualquer racionalização que recupere uma tranquilidade perdida. Não obstante a longa confiança na liderança dos EUA no confronto que originou a extinta ordem dos pactos militares, que teve ponto final na queda do Muro de Berlim, a busca de equilíbrios instáveis coloca o mundo numa permanente incerteza, que teve na crise de Cuba um exemplo a servir de advertência, sob a presidência de Kennedy. Foi por esse tempo que o historiador Frank McCann escreveu que "what makes American nationalism so dangerous to itself and to the world is that it does not recognize the validity of the other peoples nationalisms". Interesses é talvez mais claro, porque permite repartir atitudes pela generalidade dos Estados.

O caso de Cuba foi um detalhe perigoso, na política do Big Stick em relação à América Latina, que não ocorreu ao abade Correia da Serra. Depois do bombardeamento atómico do Japão - agora amenamente recordado, sem desculpas, por ambos os chefes de Estado, em Pearl Harbor -, o risco de uma guerra nuclear nunca fora tão inquietante para a humanidade como no caso dos mísseis de Cuba. Difíceis foram as negociações, ainda mal conhecidas, que permitiram acordar a retirada da URSS de Cuba e, mais tarde, os mísseis dos EUA da Turquia. Tudo pareceu regressar à ordem dos pactos militares, estranhamente garante da paz no Norte do globo, seguindo-se precisamente o assassínio do presidente Kennedy, lembrando o método do apagamento de rastos dos contos policiais. Nesta data confusa, mais uma vez se evidenciou o ilustre George Friedman, mas esteve muito longe de ser a "bola de cristal" que lhe chamaram, quando em 2010 escreveu The Next 100 Years. Foi, porém, avisado o parágrafo final: "No que me diz respeito, é deveras estranho escrever num livro cuja verdade ou falsidade, em geral, jamais estarei em posição de confirmar. Em todo o caso escrevo para os meus filhos, ainda mais para os meus netos, que vão ter a possibilidade de o saber. Se este livro os puder guiar de alguma forma, terei sido útil."

É certo que muitos dos perigos e ameaças vigentes estão ali referidos, mas o que não está previsto, porque nenhuma pitonisa apareceu a enviar a mensagem, é a desordem em que nos encontramos, nem vislumbre de uma metodologia que reanime consistentemente o pousio a que foi conduzido o projeto da ONU. O que vislumbramos é o aprofundamento da crise da filosofia de S. Francisco, quando a Carta da ONU foi elaborada, com reserva mental, segundo agora começa a perceber-se, designadamente por manifestações dos eleitorados de várias latitudes, a começar pelos das potências que pontificaram no acontecimento. É evidente que estão visíveis, mas já despontavam em 2010 os interesses desagregadores da lógica e validade dos princípios de S. Francisco, a caminho do terrorismo hoje chamado com naturalidade, no que tem de mais agressivo, "a guerra que recusa tomar o nome", ou, por exemplo, a expansão da China, hoje a comprar terras aráveis fora do seu território. Mas ajuda à visão do ameaçado declínio do Ocidente prever que, como resume e destaca o observador, que uma guerra global eclodirá em meados do século, movida por uma coligação de Estado da Europa de Leste, euro--asiáticos, e do Extremo Oriente, uma catástrofe que poderá acontecer mas que não será então com os EUA a funcionar como a Casa no Alto da Colina.

De facto, o que sobressai, de grande utilidade, é um aviso capaz de levar a reformular uma ordem mundial, que substitua, ou menos ambiciosamente, que reanime a adormecida Ordem das Nações Unidas. Sobretudo, que a indagação de que Friedman foi mestre seja continuada, com esperança de reconhecer o princípio fundamental de que Kung investiga com fé, e que definitivamente abra caminho ao mundo único e à terra casa comum dos homens. Foi enriquecida a busca do caminho para uma nova ordem, mas o primeiro serviço do fundador da Stratfor, o mestre de geopolíticas globais, foi o fortalecimento da convicção de que no princípio era o verbo - a que os factos até agora desobedeceram perigosamente e em desordem, isto é, sem poderem ser ainda organizados pela nossa racionalidade.

É evidente que a importância de analistas e comentadores e, sobretudo, a qualidade dos estadistas são um fator essencial no sentido, sobretudo, da credibilidade, a que talvez deva acrescentar-se a autoridade, para movimentar esperanças e sacrifícios. Mas parece inevitável reconhecer que a inidentidade é a característica mais evidente dos agentes, porque a dominância das imagens construídas pela revolução da comunicação social torna obscura a realidade acessível aos eleitorados.

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