Roleta francesa

Um debate televisivo com onze candidatos não é debate nenhum. Na verdade, o formato ontem usado em França para dar a conhecer as ideias dos candidatos presidenciais não foi bem o de um debate, quando muito uma exposição do programa de cada um. Confuso? Sim, mas em sintonia com a campanha, inédita desde logo porque o socialista François Hollande é o primeiro presidente que não luta sequer pela reeleição, mediática porque Marine Le Pen, da Frente Nacional, assumiu desde cedo um estatuto de líder, polémica porque o conservador François Fillon se deixou envolver em suspeitas de nepotismo, desconcertante porque um ex-ministro socialista, Emmanuel Macron, deixa para trás nas sondagens o candidato do PSF, Benoît Hamon, sendo este último ultrapassado mesmo pelo candidato que junta a esquerda mais à esquerda, no caso Jean-Luc Mélenchon. É também uma campanha tensa, devido à ameaça terrorista.

Veremos talvez já hoje se o bizarro espetáculo televisivo (e o tiroteio que à mesma hora houve contra polícias em Paris) afetou ou não as intenções de voto dos franceses, mas a última sondagem antes da prestação frente aos ecrãs dava Macron, Le Pen, Fillon e Mélenchon dentro de um intervalo de quatro pontos percentuais, todos à volta dos 20%, o que significa que qualquer um deles poderá ficar entre os dois primeiros no domingo e garantir presença na segunda volta, a 7 de maio. E a candidata da FN, que era dada como certa na ronda decisiva, já não lidera sequer as preferências, de modo que o voto francês se tornou uma roleta: pode sair um duelo Macron-Le Pen, como um Le Pen-Fillon, um Fillon--Macron, até um Le Pen-Mélenchon, com este último cenário a deixar o centro político em total confusão.

França é a terceira economia europeia e a segunda da zona euro. Pela história, pela cultura, pelo protagonismo político, é um país cujo destino não pode deixar indiferente ninguém. Importa pois, e muito, mesmo para nós portugueses, quem será o sucessor de Hollande, um homem que sai pela porta pequena deixando incrédulo quem se recorda como chegou, quando da eleição em 2012, a ser visto pela esquerda europeia como o contraponto à chanceler Angela Merkel.

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