Quotas para quê?

O DN revela hoje as intenções do PS para reforçar o sistema de quotas - lugares reservados a jovens e mulheres - nas listas do partido às eleições autárquicas. O objetivo passa por ultrapassar as exigências legais no que toca a candidatas e criar uma nova regra que aconselha as federações distritais a integrar jovens abaixo dos 35 anos, pelo menos 20%, nas listas a câmaras, assembleias municipais e juntas de freguesia.

Foquemo-nos na questão dos jovens, no arregimentar de uma nova geração para a vida partidária e para a coisa pública. Trata-se apenas de uma recomendação, aprovada pela Comissão Política Nacional, não impõe rigorosamente nada às estruturas regionais e locais, mas revela que está identificado um problema e que, no caso, os socialistas estão a tentar resolvê-lo. O PS aqui serve apenas de pretexto. Esta não é uma questão exclusiva dos socialistas. A política perdeu, há muito, o poder de sedução que teve em tempos e não é fácil encontrar uma receita para contrariar a tendência.

Entendo a tentação de impor ou sugerir quotas, mas o tema exige outras estratégias. Primeiro, seria necessário que os políticos no ativo parassem de dar razões para divórcio aos eleitores, a quem representam. Cumpram o que prometem. Debatam com os mínimos olímpicos de elevação. Discutam ideias e não pessoas ou casos. Assumam incompatibilidades. Evitem ligações menos claras. Falem claro. Não se entreguem ao populismo ou à demagogia. Um exemplo. Lateral, mas um exemplo. Na semana que passou, ficámos a conhecer - através de um jornal de referência - os rendimentos e o património dos gestores da CGD que entregaram as declarações no Tribunal Constitucional. Salários, carros e casas de pessoas que já nem sequer desempenham um cargo público. Entendemos melhor, agora, porque resistiram a entregar as declarações?

O clima criado nos últimos anos, com contributos dedicados da política, da justiça e do jornalismo, é um repelente de valor e talento. É impossível que alguém, sem pensar muito bem, sem pesar rigorosamente prós e contras, aceite um cargo de nomeação política ou decida inscrever-se num partido. Com ou sem quotas, não vai ser fácil recuperar a imagem da política e atrair jovens.

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