Um jovem líder saudita entre a crise do petróleo e o inimigo iraniano

Mohammad bin Salman al-Saud, com o presidente francês François Hollande, em junho, em Paris

Ministro da Defesa e segundo na linha de sucessão, o filho do rei, Mohammad bin Salman al-Saud, ganha destaque no país

Num artigo recente sobre Mohammad bin Salman al-Saud, o jornal britânico 'Independent' questiona-se no título do mesmo se o jovem príncipe saudita será "o homem mais perigoso do mundo".

Filho do atual rei da Arábia Saudita, Salman bin Abdulaziz al-Saud, MbS, como é conhecido, foi nomeado ministro da Defesa quando o pai subiu ao trono, a 23 de janeiro do ano passado. Aos 30 anos, é mesmo a pessoa mais jovem a ocupar este cargo em todo o mundo.

Apesar de ser o segundo na linha de sucessão na Arábia Saudita - o primeiro é ministro do Interior e seu primo Muhammad bin Nayef - alguns analistas consideram que existe uma disputa entre os dois e que na hora de subir ao trono algo inesperado poderá acontecer. O rei Salman, de 80 anos, terá uma saúde frágil e os tempos não estão fáceis para a Arábia Saudita.

"Os Al-Saud têm sobrevivido porque fizeram três pactos: com os Wahhabitas para fortalecer as suas credenciais como guardiães dos lugares sagrados de Meca e Medina, com a população, dando-lhe munificência em troca de uma liderança absolutista e com a América, para que esta defendesse os sauditas em troca da estabilidade do mercado do petróleo", escreveu no início de janeiro a 'Economist', que conseguiu a primeira entrevista 'on the record' com MbS.

"Mas estes três pactos começam a desfazer-se", constata a revista, explicando em seguida: "A América está um tanto ou quanto desligada do Médio Oriente. A queda do preço do petróleo, que gera a maioria das receitas do governo, significa que o velho modelo económico já não consegue sustentar uma população que não produz. E a aliança com os obscurantistas trouxe ameaças porque fornece aos jihadistas sustentação intelectual e constitui um obstáculo às modestas reformas que tentam dar um horizonte para lá do petróleo e criar uma economia produtiva."

Natural de Jeddah, formado em Direito na Universidade Rei Saud, MbS trabalhou vários anos no setor privado e foi governador de Riade antes de se tornar um dos mais próximos assessores do pai. Já na qualidade de ministro da Defesa lançou, em março de 2015, uma campanha de ataques aéreos contra as milícias rebeldes Houthi que, apoiadas pelo regime do Irão, expulsaram do Iémen o presidente Abd Rabbuh Mansur Hadi. Mesmo assim, na entrevista à 'Economist', negou ser o arquiteto desta guerra.

Em dezembro do ano passado, o segundo na linha de sucessão do trono saudita anunciou a criação de uma coligação de países islâmicos contra o terrorismo, depois de a Arábia Saudita ter sido acusada de alimentar o Estado Islâmico. De fora dessa aliança ficou o Irão. Sinal de que os xiitas estão excluídos. E em pleno clima de reaproximação entre Teerão e o Ocidente (depois de obtido o acordo sobre o seu controverso programa nuclear), a 2 de janeiro a Arábia Saudita executou o clérigo xiita Nimr al-Nimr, suscitando uma onda de indignação sobretudo entre os líderes iranianos.

"Qual é a relação entre um cidadão saudita que comete um crime na Arábia Saudita e o Irão? Se isso prova alguma coisa é a ambição do Irão em estender a sua influência a outros países da região", declarou MbS àquela revista britânica. Questionado sobre se sauditas e iranianos podem entrar em guerra, respondeu: "É algo que não prevemos (...) porque uma guerra Irão-Arábia Saudita iniciaria uma catástrofe maior na região com grandes reflexos no resto do mundo."

Mas com o preço do petróleo a cair abaixo dos 30 dólares, quando em 2014 estava em 115 o barril, MbS sabe que o seu maior problema reside em casa. O défice saudita é de 15% do PIB, a dívida é de 5% e as reservas estrangeiras caíram de 650 mil milhões de dólares para 100 mil milhões de dólares. "As finanças públicas da Arábia Saudita não são sustentáveis por muitos mais anos", refere a 'Economist' num artigo sobre o príncipe.

Talvez por isso o Orçamento do Estado para 2016 apresente já alguns sinais de austeridade - ainda que residuais quando comparados com medidas que foram postas em prática noutros países que têm estado em crise nos últimos anos. Acabam, assim, os subsídios para a água, eletricidade e combustível. E será criada uma taxa de IVA de 5% sobre bens não essenciais. Apesar de tudo, garante MbS, não serão introduzidos impostos sobre o rendimento ou riqueza.

O príncipe diz que quer ver mais investimento privado no seu país, na área das minas por exemplo, quer vender bens do Estado a privados e exemplifica com os quatro milhões de metros quadrados de terreno que aquele detém em volta de Meca, quer mais turismo religioso e criar mais empregos para os jovens. Afinal, 70% da população da Arábia Saudita tem menos de 30 anos. Ou seja, está na sua faixa etária.

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