"Trump mente mas que político não diz mentiras?"

Eric Frattini esteve em Lisboa para a apresentação do seu novo livro

Entrevista a Eric Frattini, jornalista autor de 'Manipulação da Verdade'

Foi Hitler que em 1933 mandou incendiar o Reichstag, culpando os comunistas, para os enviar para o campo de concentração de Dachau. Os EUA sabiam que o Japão ia atacar Pearl Harbor em 1941 mas optaram por salvar apenas o porta-aviões porque tinham interesse em entrar na Segunda Guerra Mundial. Estes são só dois exemplos de operações de falsa bandeira (expressão que procede do contexto militar, quando se içavam bandeiras de um país diferente para confundir o inimigo) que Eric Frattini conta em Manipulação da Verdade (Bertrand Editora).

Dizer que o afundamento do Maine em Havana, em 1898, foi uma operação de falsa bandeira dos EUA para afastar os espanhóis de Cuba não é o mesmo que dizer que a tentativa de golpe de Estado na Turquia, no ano passado, foi um autogolpe de Recep Tayyip Erdogan para reforçar o poder. Como é que é possível, tão próximo de um acontecimento, dizer que foi uma operação de falsa bandeira?

No jornalismo isso chama-se boas fontes de informação. Estamos já acostumados a não ter fontes, a tirar a nossa informação de alguém que diz alguma coisa no Twitter ou no Facebook, isso é o não-jornalismo. Eu, infelizmente, já sou um velho dinossauro e dos que ainda se baseiam em documentos e fontes diretas. E foram essas fontes que me ajudaram a escrever o capítulo sobre o autogolpe de Estado. São pessoas que foram detidas no espaço de 20 dias do autogolpe e continuam na prisão, não se sabe porquê. Continuam detidas 72 mil pessoas e ninguém diz nada. Uma operação de falsa bandeira são pequenas breves num jornal, que, no conjunto, formam parte de uma grande história e de um grande acontecimento.

Quais são os objetivos dessas operações?

Num dos meus romances, um vilão dizia que o terrorismo ou o medo foram criados para que a opinião pública ame a sua própria escravidão, em defesa da sua própria liberdade. É para isso que são criadas as operações de falsa bandeira. Haverá algo melhor para espalhar o medo nos EUA com o tema da imigração do que dizer que os imigrantes vão tirar-lhes o trabalho, roubá-los? Todas as operações de falsa bandeira são criadas para manipular a opinião pública, para que quando os políticos fizerem algo, nós os apoiemos. A personagem dizia que a opinião pública é a pior das opiniões. É porque ela é relativa, etérea, variável. Está a dormir. Somos uma massa que se move pelo futebol, por coisas sem importância. Preocupamo-nos em partilhar nas redes sociais fotos de gatos.

Qual é a diferença com a propaganda?

Uma operação de falsa bandeira inclui as operações de inteligência e, para se tornar pública, precisa da propaganda. É assim que fazes mudar de opinião essa opinião pública que queres manipular para atingires os objetivos concretos. Uma operação de falsa bandeira é formada por pequenos passos, sendo a propaganda uma parte importante. Erdogan faz a operação de falsa bandeira, mas se os turcos não acreditarem, porque não há propaganda suficiente, então é estúpido fazer tudo isso. Se Hitler queima um edifício gigantesco, histórico, e não tem o apoio da propaganda do Goebbels para que os alemães acreditem, não pode atingir o objetivo que é acabar com os comunistas e levá-los ao campo de Dachau. Precisa da propaganda. Tens de dar a conhecer a versão manipulada, que passa também pelos jornalistas.

Estas operações são feitas só pelas grandes potências ou também em escala reduzida. Há casos em Portugal?

Sim, Portugal também o fez. Por exemplo, na guerra de Angola houve aquela unidade muito famosa montada pela PIDE, os Flechas. Foi uma operação de falsa bandeira. Foi criada uma guerrilha que era mentira, formada por angolanos que eram postos nos países vizinhos para criar conflito e Portugal dizia que não tinha nada que ver. Mas eram eles que a tinham montado. A Rússia tem interesses políticos estratégicos a nível global, como os EUA e a União Europeia, mas os outros também têm as suas operações de falsa bandeira. Como disse um amigo meu dos serviços secretos, o mal não é fazer operações de falsa bandeira, o mal é que sejas apanhado.

Na era da pós-verdade, já não são precisas grandes operações para manipular a opinião pública. Basta mentir e as pessoas vão partilhar na internet...

Claro. Antigamente, Hitler tinha de convencer só o povo alemão que o Reichstag foi queimado pelos comunistas. Agora, as operações de falsa bandeira vão mais longe, porque já são a nível global. Já são montadas para que toda a gente acredite, porque estamos todos ligados. Por isso, as operações de falsa bandeira já se desenrolam na internet.

Como a do cibercalifado do Estado Islâmico que fala no livro?

Sim, quando os serviços de segurança russos decidem atacar alvos ocidentais criam o cibercalifado do ISIS, fazendo Obama acreditar que há uma organização muito séria de piratas informáticos que estão a atacar meios de comunicação europeus e, passado pouco tempo, atacam até a NSA [Agência Nacional de Segurança]. E só depois é que os norte--americanos descobrem que são os russos. Ri-me muito com toda a polémica que houve sobre se os russos estiveram ou não metidos nas eleições ganhas por Donald Trump. Claro que sim.

Não há dúvida?

Claro que não, sabendo como são os russos e como funcionam os piratas informáticos do FSB [serviços de informação]. E agora, na campanha francesa, também estão mortos de medo da intervenção russa. Claro que também estão ali metidos. Já Marine Le Pen falou da necessidade de associar-se, aliar-se e ter relações mais estreitas com o gigante russo. Porquê dizer isso? Não é de extrema-direita, porquê juntar-se aos ex-comunistas? É porque sabe que a manipulação a vai beneficiar.

Voltando à pós-verdade. Quando Trump diz algo e minutos depois já há informações de que é mentira, mas as pessoas continuam a acreditar no que ele diz, que o resto são notícias falsas...

Temos um problema. Quando pensamos nos EUA pensamos nos nova-iorquinos, em quem está em Washington ou Boston ou na Califórnia. Que são democratas. Não pensamos no homem que está no seu camião TIR no Nebrasca, a quem estão a dizer que um imigrante ilegal vai tirar-lhe o trabalho, roubá-lo... Esse não lê o Washington Post , lê o boletim do preço do milho. Não tem acesso à internet. Ficamos malucos com os números dos que não acedem à internet nos EUA, que são a primeira potência mundial. São milhões de pessoas.

Está a dizer que vão sempre acreditar nele mesmo se for mentira?

Trump mente, mas que político não diz mentiras? Também acontece em Portugal, em Espanha... O nosso trabalho é dizer nas colunas dos jornais ou em livros que é mentira. A minha responsabilidade acaba quando entrego o texto à editora, são as pessoas que têm de tirar conclusões. Eu nunca dou a minha opinião nos livros. Escrevi 28 ensaios. Interessam-me os factos, não opinião.

A internet torna as coisas mais difíceis. Porquê? Onde está a verdade?

A verdade não está na internet. Na internet há opinião. A internet é como um bar do bairro, onde antigamente todos dávamos opiniões sobre tudo. Porque somos peritos em tudo, sabemos treinar uma equipa de futebol e liderar um país. A internet converteu-se nisso. É uma grande base de dados e temos acesso a muitas fontes e é só isso que é maravilhoso. A partir daí, mais nada.

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