"Todos somos atores no desenvolvimento sustentável"

Teresa Ribeiro apresenta nesta terça-feira nas Nações Unidas o primeiro relatório voluntário de Portugal sobre a Agenda 2030. A secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação acredita que já não existe a ideia de que o crescimento económico e as preocupações ambientais são realidades concorrentes e explica que os países mais pobres são os mais afetados pelas alterações climáticas

Faltam 13 anos para 2030. É pouco tempo para cumprir a Agenda?

É um calendário apertado face à ambição dos objetivos. Isso torna a tarefa dos países mais complicada. Ainda que não se trate de um documento juridicamente vinculativo, ele tem um forte peso político. Esta Agenda é o reflexo do mundo interdependente em que vivemos. Não haver progresso num conjunto de Estados membros afeta necessariamente o desenvolvimento sustentável nos termos preconizados pela Assembleia Geral das Nações Unidas.

Esse peso político existe em todos os países ou o comprometimento é mais forte nuns do que noutros?

É evidente que há níveis de compromisso diferentes dos países. Sendo realistas, foi já um grande passo que o conjunto das nações tenha aceitado ter uma visão comum. Politicamente isto tem um significado muito importante. Apesar das diferenças de ritmo, todos os estados estão conscientes de que há um caminho que têm de trilhar.

No caso português estamos bem encaminhados?

Há uma grande ambição e isso é fundamental. O nosso compromisso com a Agenda também é visível no facto de termos querido apresentar, em Nova Iorque, o primeiro relatório voluntário já neste ano. Esta é uma Agenda muito inclusiva que envolve não apenas o governo. Tenho assistido a um grande compromisso da sociedade civi. Todos somos atores no desenvolvimento sustentável.

Mas o cidadão comum dificilmente saberá o que é a Agenda 2030.

Sim, é verdade, até porque o assunto parece ser relativamente exótico e retórico. E há outra questão. A Agenda anterior, a dos Objetivos do Milénio, estava sobretudo voltada para os países em desenvolvimento. Ainda que agora o paradigma tenha mudado às vezes isso não é facilmente compreensível. O que subjaz a este novo paradigma? Exata-mente a ideia de que vivemos num mundo interdependente. Tudo o que acontece num país afeta os outros. Temos visto isso com a crise dos refugiados e com as migrações. O que se passa nos outros lugares tem um reflexo imediato na Europa. Já não há fronteiras.

A velha teoria do bater das asas da borboleta...

Sim, é um bocadinho como a Teoria do Caos e o efeito borboleta. Um simples bater de asas pode provocar um tufão do outro lado do mundo. Estamos a viver essa interdependência e isso obriga a pensar o objetivo do desenvolvimento de uma forma completamente diferente. Os Objetivos do Milénio foram muito importantes, mas já estamos noutro patamar. Temos de intervir a médio e a longo prazo para permitir que os países possam ter prosperidade económica e paz. Como disse o engenheiro António Guterres, secretário-geral da ONU, na reunião da Tidewater em Lisboa, a Agenda 2030 é a da sustentação da paz. E todos precisamos da paz. Não são só os países em desenvolvimento. Todos precisamos do desenvolvimento sustentável. Olhemos, por exemplo, para as alterações climáticas. Não é um país isolado que pode resolver o problema.

Ainda existe a visão de que as preocupações ambientais são concorrentes com o crescimento económico?

Não. Já nem sequer nos países em desenvolvimento existe essa ideia. Infelizmente, as alterações climáticas atingem primeiro os países mais pobres e, dentro dos países mais pobres, as pessoas mais vulneráveis. Essa é a injustiça do sistema. Estes países têm sido muito fustigados pelas alterações climáticas, até porque têm menos instrumentos para se defenderem. As cheias, as secas e tudo o que isso provoca em termos de êxodo para as cidades e problemas associados... É um caldo terrível e os governos desses países estão muito conscientes dos resultados políticos que os efeitos das alterações climáticas têm na sua própria governação e na estabilidade política. Hoje já não podemos dizer que os países em desenvolvimento pensam primeiro em resolver o problema da economia e só depois em tratar dessa coisa romântica de que os países do Norte tanto gostam.

Exceção feita aos EUA, com a retirada dos Acordos de Paris?

Os EUA também têm sofrido com as alterações climáticas. Aquilo que vemos nos EUA - e isso mostra bem que esta não é uma Agenda dos governos - é que ao nível dos estados, das empresas e da sociedade civil há uma enorme aposta no ambiente, até porque já foram feitos investimentos muito vultuosos. O ambiente será o grande motor da economia do futuro. Isto é imparável e não há decisão política que consiga travar a própria realidade.

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