Temer e FHC unem-se a Lula em nome da política tradicional

Lula da Silva e Dilma Rousseff a 19 de março, no estado de Paraíba

Líderes dos principais partidos articulam acordo nos bastidores para impedir que Lava Jato leve um aventureiro ao Planalto

Enquanto amigos de longa data vão rompendo relações e trocando insultos ferozes nas ruas e nas redes sociais por defenderem partidos à primeira vista antagónicos, as principais referências do PMDB, do PT e do PSDB cozinham um acordo nos bastidores. Atingidos em cheio pela Operação Lava-Jato, o atual inquilino do Palácio do Planalto Michel Temer (PMDB) e os antigos chefes do Estado Lula da Silva (PT) e Fernando Henrique Cardoso (PSDB) têm trabalhado numa plataforma de entendimento, em nome da própria sobrevivência política e contra a ascensão do que seria considerado um aventureiro à presidência.

Segundo uma reportagem do jornal Folha de S. Paulo, acompanhada por outros órgãos de comunicação social brasileiros, representantes de Temer, 76 anos, Lula, 71, e Cardoso, 85, reúnem-se desde o mês de novembro em casa uns dos outros ou em restaurantes de luxo com o objetivo de evitar que as investigações da Lava-Jato exterminem a classe política tradicional.

Esses contactos progrediram quando os três se encontraram a propósito da morte de Marisa Letícia, mulher de Lula, e intensificaram-se na última semana, por causa da divulgação da delação coletiva de 78 quadros da construtora civil Odebrecht.

Temer e oito ministros do seu governo, Lula e os seus mais fiéis colaboradores e Cardoso e os seus delfins José Serra, Aécio Neves e Geraldo Alckmin foram incluídos no lote de políticos beneficiados por um esquema de corrupção "com mais de 30 anos", de acordo com Emílio Odebrecht, ex-presidente da empresa.

Por ter bom trânsito entre as partes, Nelson Jobim, ministro da justiça de FHC, as iniciais pelas quais Fernando Henrique Cardoso é conhecido no Brasil, e ministro da Defesa durante a gestão de Lula da Silva, é um dos articuladores do processo, garante a Folha. Gilmar Mendes, que foi nomeado juiz do Supremo Tribunal Federal por FHC e é amigo de três décadas de Temer é outro. Em cima da mesa estão, por um lado, a garantia de que Temer ficará no cargo até 2018, apesar da sua baixa popularidade e do processo que corre contra ele e que no limite pode derrubá-lo no Tribunal Superior Eleitoral, liderado por Gilmar Mendes; e, por outro, um eventual apoio ao político tradicional mais bem colocado nas sondagens, ou seja, Lula, sendo necessário para isso que o ex-sindicalista chegue às próximas eleições em condições jurídicas de se apresentar, apesar de todos os inquéritos que enfrenta.

Temer e FHC desmentiram a reportagem. "Só me encontro com eles socialmente, é preciso conversarmos todos mas às claras", disse o político, chefe do Estado brasileiro entre 1995 e 2002. O atual presidente concedeu que falou "com ambos, a propósito do que ocorreu [a morte de Marisa Letícia], mas que ficou marcada apenas uma conversa sobre a reforma política, não sobre acordos anti-Lava Jato". Lula não comentou.

O temor do PSDB, que esteve no poder via FHC de 1995 a 2002, do PT, que ocupou o Planalto de 2002 a 2016 através de Lula e de Dilma Rousseff, e do PMDB, que de 1985 até aos dias de hoje nunca foi oposição, é que o poder caia nas mãos de um "aventureiro".

O populista de direita Jair Bolsonaro, do Partido Social Cristão (PSC), encaixa como uma luva nesse perfil. A ecologista Marina Silva (Rede), o empresário e ex-apresentador da versão brasileira do programa The Apprentice (o programa que nos Estados Unidos contou com apresentação de Donald Trump, vencedor das presidenciais de novembro passado) João Doria (do PSDB) e o esquerdista Ciro Gomes (do PDT), embora menos, também.

Mas há quem tema acima de tudo, segundo a Folha de São Paulo, o surgimento de um candidato de dentro da própria cúpula da Operação Lava-Jato.

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