Primeiro teste de Trump e Hillary com Cruz e Sanders à espreita

Trump parece pouco preocupado com o efeito que o seu boicote ao último debate republicano pode ter nos eleitores do Iowa

Magnata acredita que ter faltado ao debate não o prejudicará no Iowa. Senador do Vermont ameaça ambições da ex-primeira-dama

Nem a neve prevista para segunda-feira deve impedir os eleitores do Iowa de se reunirem, a partir das 19.00 (madrugada de terça-feira em Lisboa) em ginásios, caves ou mesmo bares para os famosos caucus, essas assembleias populares que permitem escolher o candidato de cada partido às presidenciais de novembro nos EUA. Do lado democrata, as sondagens deixam tudo em aberto, com Hillary Clinton, a hiperfavorita a nível nacional, a surgir pouco à frente do senador Bernie Sanders. Quanto aos republicanos, o boicote de Donald Trump ao último debate antes das primárias tanto pode virar-se contra o magnata, que mantém uma vantagem considerável tanto a nível nacional como no Iowa, como pode dar oportunidade ao senador Ted Cruz para se impor.

Mesmo sendo Trump "o elefante ausente da sala" - numa referência ao animal que é símbolo do Partido Republicano feita por Megyn Kelly, a mediadora da Fox News que o magnata atacou num primeiro debate em fevereiro e depois acusou de discriminação, recusando participar neste novo debate em Des Moines -, a verdade é que o milionário parece ter sido o grande vencedor deste confronto. Em primeiro lugar nas redes sociais, onde o seu nome foi mais citado do que qualquer um dos sete adversários em palco. E depois porque mesmo Ted Cruz não resistiu a referir-se ao favorito, afirmando: "Sou um maníaco e todos neste palco são estúpidos, gordos e feios. Ben [Carson] é um péssimo cirurgião! Agora que já passámos o momento Donald Trump, gostaria de agradecer a todos aqui." E o ex-governador da Florida Jeb Bush até brincou: "Sinto falta do Donald Trump, é como um ursinho de peluche para mim."

Ted Cruz espera ultrapassar Trump

A menos de dois quilómetros dali, numa sala cheia, Trump afirmava: "Para mim, pessoalmente, foi uma boa decisão [não ir ao debate], foi uma má decisão? Vou ter mais votos ou menos votos? Ninguém sabe. E alguém quer saber? Mas recolhemos cinco milhões de dólares num só dia para os veteranos."

A dois dias da primeira etapa das primárias - cada um dos 50 estados dos EUA escolhe os delegados que na convenção do partido (republicana a 18 de julho em Cleveland, democrata a 25 de julho em Filadélfia) elege o candidato às presidenciais - a vantagem de Trump sobre Cruz no Iowa encurtou. Mas o magnata e antiga estrela do reality show The Apprentice parece ter conquistado um eleitorado pouco inclinado a mudar de ideias, Isto apesar de todas as suas declarações polémicas - desde dizer que todos os imigrantes mexicanos são criminosos e traficantes a propor banir os muçulmanos dos Estados Unidos.

"Ele já causou um impacto permanente no processo", explicou à Reuters Newt Gingrich. O ex-presidente da Câmara dos Representantes, que ganhou fama em finais dos anos 1990 quando liderou o processo de destituição contra o presidente Bill Clinton, está convencido de que Trump é "uma daquelas distrações que mudam tudo". Candidato às presidenciais em 2012, Gingrich explica o sucesso de Trump com o facto de ele "estar a atrair todo o género de pessoas, até as que nunca se identificaram como republicanas".

Exuberante e desbocado, Trump não corresponde, de facto, ao protótipo do conservador americano. Se por um lado defende o direito às armas e quer expulsar os imigrantes ilegais, é pouco religioso, não fala muito sobre questões como o aborto ou o casamento gay, pretende aumentar as taxas aos produtos importados para proteger os empregos dos americanos e parece pouco disposto a mandar tropas para o terreno na Síria.

Ideias que dividem a base de apoio do partido, incluindo apresentadores de rádio, líderes evangélicos ou gurus de Washington.

Teste para Sanders

Sanders aposta no Iowa para uma surpresa na corrida democrata

Quase empatado com Hillary Clinton no Iowa (algumas sondagens colocam-no mesmo à frente), Bernie Sanders tem-se multiplicado em ações de campanha antes dos caucus. É que naquele estado do Midwest as ideias liberais do senador do Vermont, um autoproclamado socialista democrático, atraem muitos eleitores, sobretudo jovens.

O veterano - se for eleito terá 75 anos quando chegar à Casa Branca, tornando-se o mais velho presidente dos EUA - aposta tudo numa surpresa do Iowa que lhe permita abrir caminho para o New Hampshire, onde as sondagens lhe dão uma vantagem respeitável em relação à ex-primeira-dama. Perder as duas primeiras primárias seriam um verdadeiro pesadelo para Hillary, que veria assim o cenário de 2008 repetir-se. Há oito anos, ficou em terceiro lugar no Iowa, onde Barack Obama venceu, lançando as bases para levar a sua mensagem de mudança até à Casa Branca.

Em 2008, Hillary foi terceira nos caucus. Um resultado que não pode deixar repetir-se

Empenhada em salvar aquela que é vista como a sua última oportunidade de chegar à presidência (em 2017 terá 69 anos), Hillary tem-se agarrado à herança de Obama para não cair numa espiral descendente. Mesmo se muitos, como o Boston Globe, acreditam que "o que acontece no Iowa pouco importa" a nível nacional.

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