Paz e reconciliação: a mensagem de Pocahontas nunca foi tão atual

Batismo de Pocahontas, o quadro de John Gadsby Chapman pode ser visto no Capitólio em Washington

Faz hoje 400 anos que a índia, filha do chefe Powhatan, foi sepultada em Gravesend, no Reino Unido, onde morreu após adoecer no navio que a levava de volta à América.

Para quem viu o filme da Disney, Pocahontas é a princesa índia que se apaixona pelo inglês John Smith numa América ainda colónia britânica. E pouco mais. Mas a verdadeira Pocahontas, a que faz hoje 400 anos, foi sepultada em Gravesend, uma terriola na costa do Kent depois de adoecer no navio que a levava de volta à América, foi muito mais do que isso. Filha de um chefe índio, terá ajudado a salvar a vida de Smith, mas acabou raptada pelos colonos. Enquanto convivia com os sequestradores, foi batizada e veio a casar com o comerciante de tabaco John Rolfe. Foi com ele e com o filho pequeno que viajou até Londres, onde conheceu o rei Jaime I e onde foi recebida como uma estrela.

"Ela lutou por duas coisas: paz e reconciliação. É uma recordação constante de que pessoas com origens diferentes podem conviver de forma pacífica", explicou ao jornal online Kent News o reverendo Chris Stone, responsável pela Igreja de St. George. É ali que se pensa estar sepultada Pocahontas. Os registos dão conta do enterro, a 21 de março de 1617. Mas o fogo destruiu a igreja original em 1727, não sendo possível saber onde ficava a sepultura da índia, mesmo se "se pensa que possa ficar por baixo do altar", garante o reverendo Stone.

A lenda de Pocahontas começou a desenhar-se em 1607 quando, com 13 ou 14 anos, a filha do chefe Powhatan - nascida Matoaka, mas cuja alcunha, Pocahontas, significava "a brincalhona" - impediu o pai de executar John Smith, o capitão da Marinha britânica que acabara de desembarcar em Jamestown, na Virgínia. O romance entre ambos nunca foi confirmado por fontes fiáveis e o próprio episódio do salvamento de Smith só nos chega através do relato do próprio. Mas o amor de Pocahontas e John Smith não só inspirou o filme de animação da Disney, que estreou em 1995, como O Novo Mundo, de Terrence Mallick (2005), com Q"Orianka Kilcher e Colin Farrell nos papéis principais.

A Pocahontas da Disney

Com John Smith já a caminho de Inglaterra, Pocahontas foi raptada pelos colonos, que exigiram à tribo dos Algonquian e ao seu chefe Powhatan um resgate pela filha mais nova. A refém parece ter-se deixado contagiar pela cultura dos sequestradores. Primeira indígena convertida ao cristianismo, o seu batismo não só está representado num vitral da Igreja de St. George em Gravesend como é tema de uma pintura de John Gadsby Chapman que pode ser vista no Capitólio em Washington.

Após mudar o nome para Rebecca, a índia "começou a tornar-se inglesa", explica ao Kent News John Rolfe, descendente do comerciante homónimo com o qual Pocahontas veio a casar. Os Rolfes - John, Rebecca e o filho, Thomas - embarcam para Inglaterra em 1616, tendo sido recebidos pela corte que viam na indígena uma "selvagem civilizada". O casal chegou mesmo a ser recebido pelo rei Jaime I.

Retrato de Pocahontas - ou Rebecca Rolfe - o único feito quando ela estava viva

Figura icónica, símbolo de casamento inter-racial que não deixava de surpreender a sociedade britânica, Pocahontas tinha uma missão atribuída: "promover a união de duas culturas e mostrar às pessoas que podiam trabalhar em conjunto num esforço coletivo. Esta é uma das razões pelas quais ainda é recordada, porque estes foram os seus atos mais significativos", garantiu o descendente John Rolfe.

Em Inglaterra, Pocahontas terá reencontrado John Smith, mas recusado falar-lhe. Já no barco que iniciava a viagem a caminho da América, a índia adoece. Sarampo, pneumonia, tuberculose, não se sabe bem do que terá morrido, depois de desembarcar às pressas em Gravesend, onde hoje uma estátua de bronze se ergue junto à Igreja de St. George. Tinha apenas 21 anos.

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