Oposição convoca para quinta-feira greve geral contra Maduro

Oposição na altura em que anunciou que 7,1 milhões de pessoas votaram no referendo contra as eleições para a Assembleia Constituinte marcadas pelo regime de Nicolás Maduro para o próximo dia 30

Mais de sete milhões foram votar no referendo organizado pela oposição e 98% disseram que não às intenções do presidente

Xiomara tinha 61 anos e era enfermeira. No domingo, em Caracas, uma bala pôs-lhe um ponto final na vida. Fazia fila para votar no referendo organizado pela oposição venezuelana quando um grupo de motoqueiros armados abriram fogo. Ela morreu e três outras pessoas ficaram feridas. Os opositores do governo atribuíram as culpas a um gangue paramilitar apoiante do presidente Nicolás Maduro. Os procuradores do Ministério Público prometeram investigar. Se tivesse chegado a depositar o seu boletim na urna, Xiomara seria uma entre mais de 7,1 milhões de venezuelanos que votaram na consulta popular destinada a mostrar uma clara rejeição contra as intenções de Maduro de fazer eleger uma Assembleia Constituinte no próximo dia 30.

No referendo não oficial de domingo foram três as perguntas colocadas aos eleitores. Cerca de 98% dos mais de sete milhões de votantes escolheram dizer que não às pretensões constituintes do presidente, sublinhar a responsabilidade dos militares em fazer respeitar a atual Constituição e pedir eleições presidenciais antecipadas - o mandato de Maduro termina em 2019.

"Hoje estamos a dar ao mundo um exemplo de que amamos a democracia. Todos os venezuelanos que foram votar foram com a firme convicção de que é possível encontrar uma solução para o país", afirmou durante a votação de domingo Henrique Capriles, candidato derrotado por Maduro nas presidenciais de 2013. Os 7,1 milhões que no domingo foram às urnas estão muito perto dos 7,3 milhões de votos com que Maduro foi eleito.

"A dignidade venceu e a tirania foi derrotada. Esta votação significa um mandato claro para uma nova Venezuela a partir de amanhã", reiterou no domingo a deputada María Corina Machado, uma das principais vozes da oposição - que definiu o momento como a "hora zero"

Para o diário espanhol El País não há dúvidas de que "o resultado alcançado demonstra o músculo dos adversários de Nicolás Maduro". Há vários longos meses que a situação na Venezuela está longe de ser pacífica. Têm-se sucedido as manifestações contra o presidente e os confrontos nas ruas, que se saldam já, desde abril, em mais de cem mortos. A economia está a colapsar e são milhões de venezuelanos defrontam-se diariamente com dificuldades para conseguir alimentos. "Maduro fez tudo mal e agora, através de uma Assembleia Constituinte fraudulenta, quer ganhar tempo, mas o seu tempo acabou", vaticinava o comerciante Rafael Betancourt, citado pela agência Reuters, quando no domingo se preparava para votar no estado de Barinas, a região natal do antigo presidente Hugo Chávez. Nicolás Maduro defende que o país está a ser vítima de uma guerrilha económica e afirma que a oposição está orquestrada com os EUA.

Depois de o regime ter conseguido impedir a realização de um referendo revogatório do mandato do presidente, Maduro pretende agora fazer eleger a 30 de julho uma Assembleia Constituinte que funcionará como uma espécie super-órgão legislativo, com capacidade para rever a Constituição e esvaziar de poderes o atual parlamento.

A votação de domingo mostra que grande parte da população não está contente com as pretensões do presidente. E do exterior também chegam mensagens de desaprovação. Segundo contam o venezuelano El Universal e a agência Efe, Alfonso Dastis, ministro espanhol dos Negócios Estrangeiros, defendeu ontem que a União Europeia deve explorar a hipótese de impor sanções contra o governo de Maduro caso este insista em avançar com a Assembleia Constituinte. A Alemanha também indicou que o presidente venezuelano deve repensar a sua posição. "Do nosso ponto de vista, o plebiscito expressou claramente a vontade do país. O resultado deve levar o presidente Maduro a repensar a convocatória da Constituinte", sublinhou ontem em Bruxelas Maria Adebahr, porta voz do ministério alemão dos Negócios Estrangeiros.

Nicolás Maduro, que inicialmente declarou o plebiscito "inconstitucional" e depois disse que todos os partidos podem realizar as consultas internas que quiserem, ainda não reagiu à votação de domingo. Ainda assim, Jorge Rodríguez, porta-voz do Partido Socialista do presidente, declarou que a votação tinha sido uma "fraude gigantesca", assinalando que terá havido muitos menores a votar, incluindo "miúdos de 10 anos", além de cidadãos estrangeiros.

O que pode a oposição fazer com estes sete milhões de votos? Para já, para já decidiu convocar uma greve geral de 24 horas, a começar na próxima quinta-feira, contra o regime do presidente Nicolás Maduro. "Assumamos um protesto massivo e sem violência, uma paragem cívica nacional, de 24 horas, como mecanismo de pressão para enfrentar a fraude da Constituinte [de 30 de julho]", declarou Freddy Guevara, da Mesa de Unidade Democrática (coligação da oposição venezuelana).

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