O ex-guerrilheiro que só chegou a presidente com apoio de Xanana

Lu-Olo, ao centro, tendo à direita o dirigente da Fretilin, Mari Alkatiri, e à esquerda Xanana Gusmão num comício da campanha de março

Francisco Guterres esteve sempre no mato desde a invasão indonésia de 1975 até final do conflito. Já fora candidato presidencial em 2007 e 2012. Mas à terceira foi de vez.

"Não creio que haja segunda volta", declarava Francisco Guterres quando começaram a ser divulgados os primeiros resultados das eleições presidenciais de 20 de março em Timor-Leste. E não houve. Assim à terceira tentativa, Guterres, conhecido por Lu-Olo, foi eleito com o apoio dos dois principais partidos do país, a Fretilin e o CNRT, de Xanana Gusmão. Tomou ontem posse em Díli como quarto chefe de Estado à meia-noite de dia 19 (16.00 em Portugal continental), sucedendo a Taur Matan Ruak.

A tomada de posse de Lu-Olo, principal dirigente da Fretilin, e a realização de legislativas a 22 de julho vêm abrir novo ciclo político em que a principal incógnita é a de saber se presidência, governo e Parlamento vão estar em sintonia ou se é possível ao Partido Democrático (PD) - cujo candidato presidencial, António da Conceição, ficou em segundo lugar com 32,4% dos votos, enquanto Guterres teve 57,3% - conseguir um resultado que lhe permita surgir como alternativa credível à grande coligação hoje no poder em Díli.

A forma como se organizarem os alinhamentos políticos são fundamentais para entender como o país vai lidar com os importantes desafios económicos que tem pela frente. Como o disse em inúmeras ocasiões Matan Ruak, Timor-Leste continua dependente da renda petrolífera e minado pela corrupção e nepotismo. Para combater esta situação, o ex-presidente fundou o Partido da Libertação do Povo (PLP) e vai apresentar-se às legislativas de julho. Um bom resultado do PLP e a confirmar-se o peso do voto no PD, ambos os partidos poderão representar um obstáculo às políticas da grande coligação, cujo orçamento para 2016 Matan Ruak procurou chumbar mas a maioria Fretilin--CNRT no Parlamento forçou a promulgação.

A grande coligação que tornou possível a eleição de Lu-Olo, derrotado em 2007 e 2012, quando perdeu para José Ramos-Horta no primeiro caso, e para Taur Matan Ruak, no segundo, vem mostrar a importância de Xanana, hoje aliado da Fretilin, que hostilizou politicamente após a independência. Xanana, como se revela na votação para o novo presidente, continua a ser figura central em Timor. Embora nas duas anteriores eleições, Guterres tenha sido o mais votado na primeira volta (27,8% e 28,4%, respetivamente), foi o envolvimento do líder histórico da resistência a determinar quem ganharia na segunda. E a sua intervenção voltou a ser determinante para quem está hoje no palácio presidencial em Díli.

O apoio de Xanana a Lu-Olo vem lembrar que ambos estiveram lado a lado na resistência à ocupação da Indonésia e ambos pertenciam à Fretilin, quando o novo presidente pouco mais tinha do que 20 anos. Lu-Olo nasceu a 7 de setembro de 1954 e era estudante do secundário quando se deu a invasão indonésia a 7 de dezembro de 1975. Membro da Fretilin foge para as montanhas e integra a guerrilha. Segundo a sua biografia, Lu-Olo é dos raros timorenses que esteve sempre no mato desde 1975 até final do conflito, em 2000. A partir de 1976 desempenha diferentes cargos na guerrilha e, a partir de 1998, passa a integrar a direção da frente da resistência timorense que Xanana fundou neste ano. Após o fim do conflito, é eleito presidente da Fretilin em 2001 e na sequência da vitória deste partido nas legislativas deste ano assume a presidência do Parlamento. A partir de 2007, volta a dedicar-se principalmente à Fretilin. Com Lusa

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