O antigo professor de alemão que assume a diplomacia francesa

Jean-Marc Ayrault (esquerda) foi escolhido por Hollande para suceder a Laurent Fabius (direita) como ministro dos Negócios Estrangeiros de França

Aliado de François Hollande, o ex-primeiro-ministro é conhecido por ser uma pessoa discreta em quem se pode confiar. Berlim aplaudiu a sua escolha para o Quai d"Orsay

A anunciada saída de Laurent Fabius dos Ministério dos Negócios Estrangeiros para a presidência do Conselho Constitucional, o equivalente ao Tribunal Constitucional em Portugal, teve como consequência uma esperada remodelação governamental, conhecida na quinta-feira. Uma das novidades é Jean-Marc Ayrault, que ficará à frente da diplomacia e que, tal como o seu antecessor, já foi primeiro-ministro. Curiosidade: o ocupante do Quai D"Orsay antes destes dois, mas sob a presidência de Nicolas Sarkozy, também era um antigo chefe de governo, de seu nome Alain Juppé.

Chefe do primeiro governo de François Hollande, Ayrault, de 66 anos, recebe assim uma recompensa pela sua lealdade ao presidente e ajuda-o a posicionar mais à esquerda o executivo de Manuel Valls, facto que ganha importância por estarmos a menos de ano e meio das presidenciais. Jogada que já compensou, pois foi aplaudida pelos deputados socialistas.

Mas esta nomeação traz também alguma ironia, já que Ayrault vai ser agora ministro num governo liderado pelo seu antigo ministro do Interior e que, segundo vários media franceses, foi decisivo para a sua demissão em 2014 após a derrota do PS nas eleições municipais. "A mensagem dos eleitores foi enviada e é muito clara e deve ser claramente ouvida", disse na altura o ainda chefe do governo.

Desde então foram várias as ocasiões que Ayrault se opôs ao rumo tomado pelo governo de Valls, como ao projeto de incluir na Constituição a perda de nacionalidade francesa para os detentores de dupla nacionalidade condenados por terrorismo. Porém, na quarta-feira, um dia antes de ser nomeado ministro, acabou por votar ao lado da maioria a favor desta última medida.

Cara inexpressiva

Visto como alguém em quem se pode confiar, discreto mas com falta de experiência diplomática e carisma, Jean-Marc Ayrault já recebeu elogios vindos da Alemanha, país ao qual tem ligações - licenciou-se em Alemão na Universidade de Nantes, pelo meio estudou um semestre na Baviera, mais tarde foi professor de alemão.

O ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Frank-Walter Steinmeier, disse na quinta-feira estar "satisfeito" por Ayrault, "um político francês com ligações estreitas à Alemanha", ser o sucessor de Laurent Fabius. Já o vice-presidente da Frente Nacional, Florian Philippot, viu esta nomeação como um símbolo da "submissão" de Paris a Berlim.

Goste-se ou não, a verdade é que Ayrault acredita na importância de uma "amizade" forte entre os dois países. "Para a Europa, o eixo franco-alemão, hoje mais fraco, e a qualidade da relação entre os nossos dois países são fundamentais para o avanço da União. A relação franco-alemã não pode funcionar sem uma certa intimidade. Ela tem necessidade de constância e estabilidade. Não há alternativa para liderar todos os Estados membros", pode ler-se no seu site pessoal, no qual ressalva que tem um "carinho" pela Alemanha, "país que visita frequentemente".

Elogiada também é a sua falta de ambições presidenciais, ao contrário de outros antigos primeiros-ministros, e a sua cara inexpressiva, o que poderá ser uma mais-valia agora que vai liderar a diplomacia francesa e terá pela frente temas delicados como a Síria e a questão da eventual saída do Reino Unido da União Europeia.

"Ele tem um tipo de solidez. Quando as coisas estão a correr mal ele não parece ser afetado, e quando as coisas correm bem, bem, ele não consegue entusiasmar as pessoas", disse na quinta--feira um deputado à AFP.

Autarca mais jovem

Nascido a 25 de janeiro de 1950 em Maulévrier, no Oeste da França, no seio de uma família da classe trabalhadora - o pai trocou a agricultura por um emprego numa fábrica têxtil, a mãe deixou a costura para se tornar dona de casa a tempo inteiro -, Ayrault aderiu ao Partido Socialista no início da década de 1970. Aos 27 anos, foi eleito presidente da Câmara de Saint-Herblain, nos arredores de Nantes, tornando-se o mais jovem autarca de uma cidade em França com mais de 30 mil habitantes.

O salto para a política nacional foi dado em 1979, quando chegou ao comité nacional do PS. Sete anos mais tarde estreou-se como deputado da Assembleia Nacional. Entre 1997 e 2012 foi também líder do grupo parlamentar socialista.

Pelo meio, em 1989, foi o escolhido dos socialistas para concorrer à Câmara de Nantes, eleição que ganhou, tendo ficado na liderança da autarquia até 2012, longevidade que o transformou num importante barão local do PS.

Nas primárias de 2011 para escolher o candidato socialista à presidência da República, Jean-Marc Ayrault esteve ao lado de François Hollande. E com a chegada deste ao Eliseu a lealdade foi recompensada com a nomeação para primeiro-ministro, uma relação de fidelidade interrompida de forma abrupta há quase dois anos e retomada agora.

Nos seus 23 meses à frente do governo, o socialista introduziu medidas como a diminuição da idade da reforma de 62 para 60 anos em algumas profissões, cortes até 30% nos salários do executivo, um aumento do salário mínimo ou o apoio na educação para famílias mais desfavorecidas.

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