"Nem sempre digo o que penso, mas nunca digo mentiras"

Caroline Fleetwood

Caroline Fleetwood, embaixadora da Suécia em Portugal, foi responsável pelas embaixadas suecas em Brasília e Havana, antes de vir para Lisboa.

Leia a primeira parte desta entrevista:

Diplomata por profissão e, ao que dizem os amigos, por temperamento, Caroline Fleetwood já sente um coração latino a bater. E aprendeu com os portugueses a desenrascar-se. Tem dinamizado a Associação de Mulheres Embaixadoras, a que preside, com a realização de conferências em que se juntam mulheres dos quatro continentes. Apela aos países para que assumam as suas responsabilidades na crise dos refugiados.

Quais são as principais diferenças entre os portugueses e os suecos?

Os suecos são mais pragmáticos, não ligam tanto aos títulos. Em Portugal já se vê uma ou outra situação de não dar importância ao título mas ainda é uma minoria. Na Suécia, o doutor é o médico, não se usa esse título para os licenciados.

Essa foi uma das situações que a surpreendeu quando assumiu o comando da Embaixada?

Não, porque já conhecia o país e estive em outros países da América Latina, como no Brasil, onde também dão muita importância aos títulos. Como diplomata estive em Cuba, no Brasil e, agora, em Portugal.

Aliás, mistura o português com algumas palavras em castelhano.

Sim, é muito difícil não o fazer. Primeiro estive três anos em Brasília, depois quatro anos em Havana e estou há cinco em Portugal. É difícil fazer a separação das palavras.

Viveu experiências muito diferentes nesses países?

Sim, são países muito diferentes. Gostei muito de Brasília, é uma cidade única, uma paisagem de alturas e planícies e é tudo muito longe, é praticamente um continente. É uma cidade artificial, que não existia antes de 1960. Vivíamos em condomínios, por ordem mais ou menos alfabética, mas era uma vivência interessante. Também gosto muito dos brasileiros. Visitei muitas zonas do Brasil e foi muito gratificante. Em Cuba, era um desafio, porque nem sempre tivemos a mesma opinião política.

O que se faz numa situação dessas?

Aí tem de funcionar a diplomacia, tem de haver um entendimento. Eu digo o que penso, o outro diz o que pensa, o mais importante é haver diálogo e tentar passar a mensagem. Não se deve fechar as portas, construir muros. Deve-se ouvir, falar e encontrar um meio termo, uma forma de entendimento.

Essa até poderá ser uma definição de diplomacia.

Sim, mas sem perder a nossa opinião, a nossa mensagem. Deve-se encontrar uma forma de transmitir o que pensamos e que faça que a outra pessoa nos ouça, que reflita sobre o que pensamos.

Como é que se aprende a ser diplomata? - não estou a falar da componente científica e técnica. Há pessoas que mais facilmente podem desempenhar esse papel?

Passei muitos anos no Ministério dos Negócios Estrangeiros e claro que se aprende. Mas tenho amigos que me dizem: "Tu não aprendeste a ser diplomata. Tu nasceste diplomata" [ri-se]. Não sei, acho que é também uma questão de personalidade.

Diz sempre o que pensa?

Nem sempre digo o que penso, mas nunca digo mentiras.

Diz que tem um coração latino. De que forma é que esse temperamento se manifesta?

É verdade. Eu digo isso e os meus amigos também me dizem muitas vezes: "És mais latina do que nórdica." Para mim, ser latino é ser um pouco mais aberto e entender a forma de ser do povo português. Não estive só em Portugal, também na Espanha e na Grécia - conheço bem o Mediterrâneo. Outra característica é a maneira de resolver algumas questões, de ser mais flexível. Os suecos são muito rígidos.

É o chamado desenrasque do povo português.

Sim, sim [ri-se]. É pegar numa coisa e achar que se pode fazer só de uma maneira, mas vem alguém e diz que também é possível fazer assim e assim. Os suecos sabem fazer uma coisa e é daquela forma e mais nada, os portugueses são mais flexíveis.

Também já se desenrasca bem?

Sim, quando é preciso [ri-se].

E já se habitou à falta de pontualidade dos portugueses?

Isso é interessante, porque quando tenho receções, os suecos vêm um pouquinho antes da hora, os portugueses vêm à hora em ponto e todo o mundo pensa que tem de ser pontual, fazem questão de serem pontuais. E, depois, vêm os suecos que estão há mais tempo em Portugal e chegam atrasados [ri-se].

Mas a Caroline continua a ser pontual?

É uma questão de educação. Chego a horas para poupar o tempo dos outros, para que os outros não percam o seu tempo por estar à minha espera. Essas pessoas também têm compromissos, têm de estar em outros lugares. Ser pontual é pensar nos outros.

Preside à Associação das Mulheres Embaixadoras. Mudou alguma coisa?

A Associação já existia quando aqui cheguei. Organizavam uns almoços, uns encontros, entretanto elegeram-me e tenho vindo a dinamizá-la, nomeadamente com a realização de conferências. O que acho interessante é a diversidade destas mulheres. Quando aqui cheguei havia embaixadoras dos cinco continentes, o que não acontece agora porque a embaixadora da Austrália foi embora e foi substituída por um homem. Mas temos representantes de quatro continentes, das várias religiões. É muito interessante e somos amigas, temos a facilidade de falar entre nós e resolver os problemas. É uma maneira de comunicar. Temos realizado seminários sobre o papel das mulheres e os obstáculos que enfrentam e tido o apoio do Presidente da República. É um grupo totalmente voluntário. Vem quem quer e todo o mundo vem.

Pelo que já conhece de Portugal, o que nos falta para conquistar a igualdade plena?

Acho que os países do Sul da Europa estão no bom caminho. Portugal tem um presidente fantástico, Marcelo Rebelo de Sousa, que é muito interessado nas questões da igualdade de género. Presidiu à última conferência que a Associação das Mulheres Embaixadoras em Portugal organizou sobre "Mulheres na Liderança". Tivemos três painéis: setor público, setor privado e media.

Quantas embaixadoras existem em Portugal?

São 24 embaixadoras, homens serão uma centena.

A Suécia é o terceiro país com a mais alta taxa de natalidade da Europa dos 27. Portugal tem das mais baixas. O que é curioso, porque quando se fala na falta de chefias femininas justifica-se com as responsabilidades familiares. O exemplo sueco mostra que essa não é a verdadeira questão.

O que acontece é que temos bons sistemas de apoio à maternidade. Não só os pais podem ficar muito tempo em casa com as crianças, períodos que podem repartir enquanto os filhos são pequenos, como existem bons jardins-de-infância. Há, também, ajuda financeira para a educação, os livros são grátis, etc. E, depois, os casais fazem uma verdadeira divisão das tarefas domésticas, como acontece com a minha filha que tem dois filhos. Há uma divisão perfeita, vejo que há um equilíbrio entre as tarefas que cada um faz em casa, o que é fantástico.

Tudo isso ajuda ao aumento da taxa de natalidade?

Sim. Também temos muitos imigrantes e que têm muitos filhos. Tudo isto ajuda as estatísticas.

Ser mãe é incompatível com uma carreira profissional intensa?

Não. Na Suécia não é incompatível, mas também vejo as mulheres muito cansadas, e que, por vezes, escolhem ficar mais tempo em casa com os filhos. Trabalham menos horas, mas tudo isto pode ser partilhado com o marido. Ele também pode optar por ter períodos de trabalho menos intensos. E, agora, os computadores também permitem que se executem tarefas a partir de casa. Conheço mulheres que trabalham um ou dois dias em casa e os restantes no local de trabalho e funciona. Temos de estar abertos para novas ideias, novas soluções e essa é uma característica sueca muito boa. Estamos sempre a ver como podemos fazer algo de outra maneira e de modo a nos facilitar a vida. Estamos sempre à procura da melhor forma de solucionar o problema.

Encontra muitas diferenças na mentalidade dos portugueses?

Adoro o povo português, penso que também são abertos para receber o outro, os estrangeiros, mas são um pouco tradicionais, conservadores. Acho que Portugal está no bom caminho e vejo muitas coisas boas que se estão a passar no país.

A Suécia, tal como o Reino Unido, não aderiu ao euro. Há a hipótese de seguirem o caminho dos britânicos?

Não, não, estamos muito bem na União Europeia, só não queremos ter a mesma moeda. Não é o momento para sair da União Europeia.

A Suécia tem recebido muitos refugiados?

Muitos, 160 mil o ano passado, mas defendemos que todos os países têm de assumir as suas responsabilidades e isso não está a acontecer. Os governos português e sueco estão de acordo em relação a isso e já o manifestaram. Todos os países têm de contribuir.

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