Nem houve aperto de mão no encontro entre Rajoy e Sánchez

Reunião entre Rajoy e Sánchez decorreu na sala de jantar institucional do Congresso, um local “neutro”, como pediu o primeiro-ministro

Primeiro-ministro e líder socialista estiveram reunidos durante 25 minutos no Congresso sem que houvesse avanços para permitir um acordo para a formação de governo

A frieza dos gestos à entrada do encontro, que durou menos de meia hora, já deixava antever o resultado da reunião entre Pedro Sánchez, encarregado pelo rei de tentar chegar a acordo para formar governo, e Mariano Rajoy, o primeiro-ministro em funções. O socialista chegou a estender a mão ao líder do Partido Popular (PP), mas interrompeu o movimento quando se apercebeu que ele apertava o botão do casaco e nem sequer estava a olhar. Não houve aperto de mão à frente aos jornalistas (os dois entraram juntos na sala e confirmaram que se cumprimentaram antes) e também não houve acordo.

"Nem me pediu apoio, nem que facilitasse nada, mas isso já tinha dito antes, pelo que não houve surpresa", disse Rajoy, indicando que Sánchez não lhe pediu que o PP apoiasse ou se abstivesse no debate da investidura. Nessa altura, o líder socialista terá que conseguir o voto da maioria absoluta dos deputados (176) na primeira votação ou da maioria simples na segunda, sendo que só tem 90. "O objetivo é que o PSOE facilite um governo liderado pelo PP, que foi o partido mais votado", acrescentou o primeiro-ministro, que elegeu 123 representantes.

Minutos depois, Sánchez repetia que os socialistas não vão apoiar um governo liderado pelos populares, como continua a defender Rajoy, que quer um executivo onde também entre o Ciudadanos (40 deputados). O líder socialista considerou ainda a questão do aperto de mão um "facto sem importância" - mesmo tendo o PSOE criticado o primeiro-ministro no Twitter. "Sabíamos que não era um político decente. Agora sabemos que também não é educado", dizia a mensagem, que acabava com a hashtag #MarianoEscondeHastaLaMano (Mariano esconde até a mão).

Referências a Portugal

O chefe de governo foi o primeiro a falar aos jornalistas no final da reunião, que depois de muito debate decorreu na sala de jantar institucional do Congresso. Rajoy exigia um local neutro e não ser recebido por Sánchez no espaço parlamentar socialista, que foi o palco dos encontros com os outros líderes partidários nas negociações para a investidura.

O primeiro-ministro explicou que concordou com o líder do PSOE na importância de manter os pactos de Estado em áreas como a luta contra o terrorismo, a unidade de Espanha e uma "eventual" reforma da Constituição. Sobre a Economia ("é preciso levá-la a sério"), lembrou que o país fez um "enorme esforço" nos últimos anos, alertando que "algo que está bem, pode rapidamente deixar de estar".

E voltou a falar de Portugal para alertar contra os riscos de uma coligação de esquerdas. Na véspera já usara o aumento do prémio de risco da dívida portuguesa, que está acima dos 400 pontos, para falar dos malefícios de um eventual governo do PSOE com o apoio do Podemos (69 deputados) e de várias formações nacionalistas.

Chamado a comentar o tema pela correspondente da RTP em Madrid, Sánchez lembrou que a situação portuguesa não tem nada a ver com a coligação liderada por António Costa, que até já viu o seu orçamento aprovado por Bruxelas. "A virtude é que as forças da mudança se entenderam em Portugal", disse. Sánchez pediu para Rajoy e os ministros acabem com a "campanha de medo" contra um eventual governo do PSOE com o apoio do Podemos.

Encontro útil

Segundo o líder socialista, a reunião com Rajoy foi "útil" para que os espanhóis "vejam os dois principais partidos a dialogar". O último encontro entre ambos tinha sido a 23 de dezembro, no rescaldo das eleições gerais que decorreram três dias antes, com o PP a acusar o líder socialista de recusar encontrar-se com o primeiro-ministro desde então. Sánchez indicou que transmitiu a Rajoy que pretende um governo de dupla mudança: que não só substitui "as políticas do PP" como substitui "o próprio Rajoy".

O secretário-geral do PSOE falou na necessidade de o PP se "limpar e regenerar", explicando que isso só acontecerá quando estiver na oposição. Cercado por escândalos de corrupção no seu partido, o primeiro-ministro insiste em defender as leis que aprovou durante o seu mandato para combater o problema e dizendo que "não houve impunidade para ninguém".

Debate de investidura

A vice-primeira-ministra, Soraya Sáenz de Santamaría, repetiu ontem os pedidos do PP para que o debate de investidura ocorra o mais rápido possível. Sánchez "está a ter tempo para chegar ou não a acordos mas a demora não pode ser sine die, porque é preciso um governo estável no nosso país o quanto antes", afirmou a número dois do governo, no final do conselho de ministros.

O líder socialista disse na conferência de imprensa após o encontro com Rajoy que espera que o debate ocorre no início de março. E disse trabalhar para que "não haja repetição de eleições", um cenário que poderá tornar-se realidade caso passem dois meses desde o primeiro debate de investidura sem que haja acordo.

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