Ministro admite negligência na gestão do caso de Ibrahim El-Bakraoui

Jan Jambon, ministro belga do Interior

Jan Jambon realçou que "alguém foi negligente, não foi suficientemente proativo, nem concentrado"

O ministro belga do Interior admitiu hoje que houve negligência na gestão do processo de Ibrahim El-Bakraoui, um dos presumíveis autores dos atentados de Bruxelas que foi detido na Turquia, em 2015, e posteriormente deportado para a Holanda.

"Após uma reunião com a polícia federal, só posso concluir que alguém foi negligente, não foi suficientemente proativo, nem concentrado num processo que desde o início podemos perceber que se tratava de terrorismo", disse o ministro belga Jan Jambon, numa audição no parlamento belga.

Jan Jambon, que apresentou a demissão na quinta-feira, recusada pelo primeiro-ministro belga, Charles Michel, disse hoje que, como responsável pela polícia, deve assumir "a responsabilidade política", sublinhando, no entanto, que esta posição "não tem nada a ver com culpabilidade".

Na quarta-feira, o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, afirmou que as autoridades turcas tinham detido e deportado para a Holanda, no verão de 2015, um dos bombistas suicidas envolvidos nos atentados de terça-feira, em Bruxelas.

Nesse mesmo dia, um alto responsável turco especificou que o bombista em questão era Ibrahim El Bakraoui.

Hoje, no parlamento belga, Jambon referiu que "não é preciso ser superativo" para compreender que "existe um risco muito elevado" de que alguém com o perfil de Ibrahim El-Bakraoui -- condenado a 10 anos de prisão, detido durante vários anos, que viajou para a Síria e que foi intercetado na fronteira com a Turquia -- poder ser um combatente estrangeiro.

"Desde o dia 26 de junho, momento em que somos informados, e o dia 20 de julho, momento em que El-Bakraoui foi transportado por avião para a Holanda, o oficial de ligação não fez nada de essencial", prosseguiu.

"A forma como as coisas decorreram foi inaceitável e assumo as consequências", afirmou o ministro.

Ibrahim El Bakraoui foi intercetado a 11 de junho de 2015, na Turquia, perto da fronteira com a Síria e, a 26 de junho, a polícia turca informou a sua detenção ao oficial belga de ligação, o representante da polícia belga no país, segundo explicou Jambon.

Três dias mais tarde, a 29 de junho, este oficial comunicou esta informação aos serviços da polícia judiciária na Bélgica, que, por sua vez, informou o funcionário na Turquia de que Ibrahim El Bakraoui tinha um passado judicial e que tinha sido condenado a dez anos de prisão por assalto à mão armada.

A 14 de julho, a Turquia enviou uma "nota verbal", em turco, para o endereço eletrónico da embaixada belga em Ancara, a informar que o suspeito ia ser deportado para a Holanda.

No dia seguinte, o funcionário policial belga, numa reunião com a polícia turca, é informado de que Ibrahim El Bakraoui tinha sido detido na Turquia por terrorismo e que, caso quisesse informações adicionais, tinha de fazer um pedido por escrito.

Nesse mesmo dia, o funcionário informou a embaixada belga, em Ancara, que, por sua vez, avisou as autoridades holandesas.

As informações adicionais solicitadas pela Bélgica só chegaram em janeiro de 2016, seis meses após a deportação do suspeito, e confirmavam que El Bakraoui tinha sido detido na capital turca, por "vínculos com a zona de conflito".

O ministro belga dos Negócios Estrangeiros, Didier Reynders, também hoje ouvido no parlamento belga, na comissão conjunta do Interior, Justiça e Negócios Estrangeiros, sublinhou que o método utilizado pela Turquia para comunicar a expulsão de El Bakraoui não é o habitual.

"O método habitual de trabalho é os serviços policiais turcos contactarem os funcionários de ligação quando há uma extradição na ordem do dia", disse o chefe da diplomacia belga.

Desde maio de 2013, existiram seis comunicações deste tipo entre a Turquia a Bélgica, cinco foram realizadas a nível policial e a única que foi enviada através do endereço eletrónico da embaixada foi esta, segundo explicou Didier Reynders.

Por sua vez, o ministro belga da Justiça, Koen Geens (que também apresentou demissão na quinta-feira), admitiu ser necessário "verificar se as informações foram tratadas e comunicadas corretamente".

Koen Geens considerou ainda "imperativo" que a polícia e os diferentes serviços de segurança implicados na luta antiterrorista partilhem informações para prevenir atentados.

Três explosões foram registadas na terça-feira, em Bruxelas: duas no aeroporto internacional de Zaventem e uma na estação de metro de Maelbeek, junto às instituições europeias, no centro da capital belga.

Pelo menos 31 pessoas morreram e outras 300 ficaram feridas nos ataques na capital belga, reivindicados pelo grupo extremista autodenominado estado islâmico.

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