Manuel Silva junto ao Memorial dos Pescadores de Atum, em San Diego. Ali estão os nomes de vários pescadores, entre os quais o do seu pai
| D.R.
Manuel Silva junto ao Memorial dos Pescadores de Atum, em San Diego. Ali estão os nomes de vários pescadores, entre os quais o do seu pai
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Manuel A. Silva viveu o auge e o declínio da indústria do atum em San Diego, Califórnia do Sul, que chegou a ser o terceiro setor com mais peso na economia
A história de vida de Manuel Armando Silva - Armand para os americanos - confunde-se com a da pesca do atum, indústria que no século passado chegou a ser a terceira mais importante na economia da zona de San Diego, no Sul do estado da Califórnia. Aos 8 anos começou a sair para o mar com o pai durante as férias de verão, aos 45 deixou de ir e hoje, aos 87, desfez-se de tudo o que tem que ver com a pesca: navios atuneiros, fotografias, binóculos, mapas, etc... menos das memórias - que gentil e lentamente aceita partilhar. Já nem a guitarra portuguesa, que era do pai, tem. Não é agarrado às coisas? "Acho que encerrei um capítulo da minha vida. Vendi os barcos a meio caminho entre o auge e o declínio da indústria. Foi o melhor. Foi em 2005 e acho que fiz bem", diz ao DN em inglês, porque o português é fraco, apesar de ser filho de portugueses.
"O meu pai era o Manuel Silva, mais conhecido por Frizado. Ele era da Madeira, tal como a minha mãe, Mary. Ambos emigraram para Oakland, onde casaram e, depois, foram para San Pedro." Isto porque um tio do pai viu que ali pescavam o mesmo tipo de peixe que estavam habituados a pescar na Madeira. "Quando o meu pai foi para San Pedro trabalhou para uma família japonesa e foi capitão de um dos seus barcos." Depois seguiu para San Diego - situado a uma distância de quase 200 km. "Os pescadores começaram a ir cada vez mais para sul, pescavam atum, que foi a indústria que se tornou famosa: estava em fase de invenção. Nós aprendemos muito com os japoneses, a pescar atum com caniços de bambu, havia de uma, de duas, de três e até de quatro pegas, dependendo do tamanho do peixe." O pai aprendeu navegação celestial, conhecimento que lhe transmitiu. Trabalhou para grandes famílias, muitas italianas, era capitão dos seus barcos. Quando o pai teve o seu próprio barco, Manuel A. Silva tinha 10 anos - há dois que começara a sair para o mar. "Todos os anos, quando chegavam as férias do verão, ia para o mar com o meu pai. Mas quis fazer os estudos e acabei o liceu em 1948. Sempre disse ao meu pai que queria finalizar os estudos e passar pela experiência de ir ao baile de finalistas, que disso não ia abdicar", conta, rindo.
Em San Diego cruzam-se várias comunidades, de portugueses, japoneses, italianos, irlandeses ou mexicanos... e celebram as festas uns dos outros. Os portugueses, muitos dos Açores, têm a Festa do Espírito Santo. Os irlandeses o Saint Patrick"s Day. Os mexicanos o Cinco de Mayo, que como o próprio nome indica é a 5 de maio. "É mais festejado aqui nos EUA do que no México e assinala a derrota dos franceses pelo exército mexicano no século XIX", explica ao DN Manuel A. Silva, à mesa de um jantar comemorativo da data organizado pela comunidade portuguesa perto da Igreja de Santa Inês em Point Loma, zona que, outrora, ficou conhecida como Tunaville. Tacos, burritos, enchiladas, quesadillas, fajitas, tequillas. Ali havia de tudo um pouco. Ah! E uma atuação de folclore mexicano. A Igreja de Santa Inês foi construída com donativos dos pescadores portugueses, tal como o Memorial dos Pescadores de Atum. Nele, quatro homens com quatro caniços estão representados em bronze. Atrás, os nomes dos pioneiros da pesca do atum, com o pai de Manuel, o Frizado, bem como os que saíram para o mar e nunca mais regressaram.
"Eu era muito velho quando era novo, sabe, já tinha muita experiência de mar quando acabei o liceu em 1948." Tornou-se capitão dois anos depois. "1950 foi um ano e peras. A 13 de maio fiz 20 anos, a 3 de junho casei com a minha primeira mulher, Mary, a 9 de junho embarquei como capitão." Com Mary, falecida há já 20 anos, Manuel teve dois filhos, Cathy Lynn e Stephen, este último também já falecido. O que diziam os filhos cada vez que ia para o mar pescar atum? "Eles estavam muito habituados, eu ir não era grande coisa, eu regressar, sim, era. Porque, sempre que eles queriam qualquer coisa, a mãe deles dizia que tinham de esperar até o pai voltar para casa. Era a disciplina que era necessária." Manuel A. Silva teve cinco atuneiros e a todos batizou com nomes cheios de significado. O primeiro, Cathy Lynn, foi uma homenagem que quis fazer à filha, hoje casada com um alemão e, por isso, Dellenbach de sobrenome. Seguiram-se o Sea Quest, o Proud Heritage, o Tradition e o Legacy. Estes dois últimos foram os únicos que não capitaneou.
Depois da pesca com caniço, foi inventada a pesca com recurso à técnica de Purse Seine, ou seja, pesca com redes de cerco. Muito por força da competição dos japoneses que traziam peixe a preços mais baratos para os EUA. "A frota de atuneiros americanos estava ameaçada e para tempos extremos foi preciso medidas extremas", recorda Manuel A. Silva, folheando um livrinho da sua autoria, de que ainda guarda alguns exemplares. Poucos. Nele explica como se deu a evolução da indústria da pesca e conserva de atum.
Com os caniços apanhavam pouco peixe e não conseguiam competir. Com a Purse Seiner tudo mudou. Os navios foram adaptados para a pesca com redes de cerco, de nylon, tendo a quantidade de atum capturado aumentado consideravelmente. E a indústria voltou a sorrir. Não por muito tempo. Depois veio a problemática dos golfinhos, que ficavam presos nas redes e, apesar dos esforços dos pescadores, alguns não eram resgatados com vida. A polémica foi engrossando, a pressão dos ambientalistas também, levando a uma série de proibições por parte do governo dos EUA. "Conhece o ex-vice--presidente americano Joe Biden? Perdi a conta às vezes que discuti com ele no Congresso em Washington DC", diz, em referência aos tempos em que foi presidente de organismos como o American Tunaboat Association. "Tudo o que tinha que ver com a pesca eu tratava. Fartei-me de viajar e de ir a reuniões."
Segundo Manuel A. Silva, durante a II Guerra Mundial, 52 atuneiros com 600 voluntários a bordo apoiaram as operações militares no Pacífico. 22 desses navios e respetivas tripulações nunca mais regressaram. Na Baía de San Diego, mostram as fotos, não havia lugar para tantos atuneiros. Hoje em dia, encarrega-se de mostrar a realidade, na mesma paisagem imperam os navios de cruzeiro, iates de luxo, veleiros. Atuneiros, esses, nem vê-los. Os que restam, andam mais para sul, na zona da Samoa Americana. O declínio da indústria do atum tornou-se inevitável e Manuel A. Silva decidiu vender todos os seus barcos e desfazer-se de tudo. Foi há 12 anos, em 2005, altura em que casou, pela segunda vez, com Annie.
De origem chinesa, ela é hoje a sua companheira de velhice, mas também a sua grande aliada nas aventuras em que desde então tem embarcado. Não tão perigosas como as que viveu quando pescava em alto-mar. Mas nem por isso menos estimulantes. Avô de cinco netos e bisavô de vários bisnetos, Manuel A. Silva e Annie viajaram desde 2005 por 45 países. Em Portugal esteve em 2016, fez um cruzeiro pelo rio Douro e visitou alguns familiares em Paul do Mar, na Madeira. "Eu e a Annie não ficámos muito tempo aí. Durante a minha vida visitei todos os continentes." E qual o seu destino preferido? "É difícil escolher, mas gosto de Itália, muito. Gosto de Portugal, claro, gosto de Espanha e gosto de França. São os países das línguas do amor", diz, entre risos. Depois de cumprir toda uma missão, depois de ser o rosto do negócio que foi a indústria do atum, decidiu desligar-se do que sempre conheceu. "Todos chegamos a esse ponto na vida." De Manuel A. Silva poder-se-ia, por isso, dizer que dedicou a vida ao mar. Dedicou, sim, mas não a entregou. Emprestou-a.
Em San Diego
A jornalista viajou no âmbito da parceira DN/FLAD