Macron consegue maioria absoluta. Le Pen estreia-se como deputada

Presidente Emmanuel Macron, ontem numa homenagem a Charles de Gaulle, a quem muitos o começam agora a comparar

O La République en Marche!, partido lançado pelo atual presidente francês, aliado ao MoDem, conseguiu a maioria dos 577 deputados numa Assembleia Nacional em que aumentam as caras novas e as deputadas

Aquilo que poucos julgavam possível acontecer há uns meses, tornou-se ontem realidade. Emmanuel Macron, de 39 anos, viu o seu La République en Marche! vencer a segunda volta das eleições legislativas com maioria absoluta, depois de, no dia 7 de maio, ter ele próprio saído vencedor das presidenciais em França.

Abalou os partidos que dominaram a vida política no país durante as últimas décadas e levou a cabo a renovação da classe política. Esta traduz-se também numa maior presença feminina no Parlamento: entre 27% e 40% dos 577 novos eleitos são mulheres. A maioria absoluta abre caminho ao lançamento de reformas que Macron sempre disse que tencionava fazer. Na lista de prioridades estão a reforma do código do trabalho para fazer face a uma taxa de desemprego de 9,6%, um projeto de lei para promover a moralização da vida pública e impedir nomeadamente que parlamentares possam empregar familiares e uma lei que reforce as medidas de segurança contra o terrorismo (algo que suscita, à partida, críticas por parte dos defensores das liberdades civis).

Com abstenção de 56,6% - e 97% dos votos contados - estas legislativas resultaram na eleição de 334 deputados para o La République em Marche! e os aliados do MoDem, centristas liderados pelo atual ministro da Justiça François Bayrou. Os Republicanos e seus aliados tiveram 132 eleitos (110 dos quais são do partido do ex-presidente francês Nicolas Sarkozy, que no Parlamento atual tinham 196). O Partido Socialista e seus aliados ficaram em terceiro lugar com 42 deputados - 28 socialistas - quando antes tinham ao todo 295. Face a esse resultado o líder do PS, Jean--Christophe Cambadélis, anunciou de imediato a sua demissão. O ex-primeiro-ministro Manuel Valls conseguiu ser eleito, mas com uma vantagem de apenas 139 votos - e mesmo assim terá de enfrentar o recurso apresentado pela sua rival Farida Amrani, saída do partido França Insubmissa.

Liderado por Jean-Luc Mélenchon, este partido obteve 16 eleitos e os seus aliados comunistas 10. A Frente Nacional elegeu oito deputados quando antes tinha dois. Marine Le Pen, a líder do partido, que nas eleições presidenciais de 7 de maio disputou a segunda volta com Emmanuel Macron, é uma das eleitas pela extrema-direita. Habituada ao Parlamento Europeu, onde é deputada há anos, Le Pen vai estrear-se como deputada na Assembleia Nacional. Apesar de, com o atual sistema, este ser o melhor resultado da formação, em 1986 elegeu 35 deputados, numas eleições em que foi introduzida uma dose de proporcionalidade. Le Pen não formará grupo parlamentar, pois para isso precisava de 15 deputados eleitos pela FN.

"Os franceses preferiram a esperança à cólera", disse ontem à noite Édouard Philippe, primeiro-ministro conservador que Macron escolheu após ser eleito. Saído d"Os Republicanos, Philippe verá agora o seu partido dividir-se muito provavelmente entre os que querem cooperar com o presidente e os que preferem resistir àquilo a que já se chama tsunami Macron.

Christophe Castaner, porta-voz do governo de Macron, reagiu com moderação à vitória, depois de o presidente ter pedido que se evitassem festejos triunfalistas. "O que os franceses nos deram não foi um cheque em branco, tudo faremos por merecer a sua confiança, debilitar as forças extremistas e evitar que, no futuro, se repitam estes níveis de abstenção".

Ao demitir-se, o primeiro-secretário dos socialistas franceses disse que a esquerda deve refletir. "A esquerda tem de repensar tudo, a contínua ampliação das liberdades e do Estado providência já não é só por si suficiente", declarou Jean--Christophe Cambadélis, citado pelos media franceses e pelas agências noticiosas internacionais, tal como os restantes candidatos.

"Face a este bloco que representa os interesses da oligarquia, nós somos a única força de resistência à dissolução do modelo francês", afirmou, por seu lado, Le Pen, no tom desafiador que a caracteriza. "Combateremos com todas as forças os projetos do governo dita-dos por Bruxelas. Estaremos aqui, amanhã mais fortes do que hoje, para defender a França e propor à nação um projeto de futuro", prosseguiu a deputada-eleita, conhecida pelas suas posições contra a UE, o euro, o espaço Schengen, os imigrantes e os refugiados.

Ao contrário de Le Pen, Mélenchon manifestou a intenção de formar um grupo parlamentar. "Será este grupo que irá apelar ao país, quando for a altura certa, que faça uma resistência social. Informo hoje o novo poder que não haverá cedências nem num único metro de terreno dos direitos sociais sem que tenha de haver luta", disse, deixando antever manifestações de rua contra quaisquer reformas.

Entre os restantes deputados eleitos há a assinalar a estreia de três nacionalistas da Córsega, bem como a eleição de vários lusodescendentes ou franco-portugueses pelo La République en Marche! "É uma forma de revolução porque ganhámos as presidenciais e agora ganhámos a Assembleia. Ou seja, com boas ideias e as boas pessoas é possível fazer algo grande", disse à Lusa, em Paris, Ludovic Mendes, que tem 30 anos e foi eleito pela 2.ª circunscrição de Moselle. E agora? "Agora temos de começar o trabalho para mostrar às pessoas que podem ter confiança em nós".

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