Lula contra Moro, parte II domina atenções no Brasil

Antigo presidente presta segundo depoimento ao juiz durante horas e polícia monta esquema de jogo de futebol de alto risco para prevenir guerra de claques

Duas das personagens mais populares do Brasil voltaram ontem a ficar frente a frente: de um lado Luiz Inácio Lula da Silva, antigo presidente e líder nas sondagens para as eleições de 2018 em todos os cenários; do outro Sergio Moro, o juiz coordenador da Lava-Jato, a operação que combate a corrupção endémica no país. Durante cerca de duas horas, o político respondeu às perguntas do magistrado a propósito do suposto pagamento ilícito da empresa Odebrecht para a construção do Instituto Lula, em São Paulo.

O depoimento surge depois de Lula ter sido denunciado pela justiça pela nona vez ao longo da semana - o último caso é independente da Lava-Jato - e após a delação explosiva de Antonio Palocci, na qual o seu ex-ministro das Finanças o acusou de ter estabelecido "um pacto de sangue no valor de 300 milhões de reais [cerca de 80 milhões de euros]" com Emílio Odebrecht, antigo presidente do grupo com o mesmo nome. Segundo Palocci, que chegou a ser dado como sucessor de Lula na presidência antes de Dilma Rousseff ser escolhida e está detido há um ano em Curitiba, esse dinheiro foi para o PT e para o próprio ex-sindicalista em troca da concessão de contratos à Odebrecht. Antes de Lula, um assessor de Palocci também depôs perante Moro. "Eu vi o Palocci mentir aqui e senti pena disso", disse Lula. "Ele tem todo o direito a querer ficar livre, a gozar o dinheiro que ganhou mas não pode é atirar a responsabilidade do que fez para cima dos outros."

O encontro - o segundo, após depoimento em maio sobre a propriedade de um apartamento triplex na estância balnear do Guarujá que resultou na condenação do político a nove anos e meio - foi tratado pelas forças policiais como um jogo de futebol de alto risco. Os 1500 agentes no local impediram a aproximação fosse de quem fosse, além de jornalistas credenciados para o efeito ou moradores nas imediações, num perímetro de dois quarteirões em redor da sede da Justiça Federal, onde fica o gabinete do juiz .

A cerca de três quilómetros do local, estacionaram 40 autocarros, transportando cerca de 2500 apoiantes de Lula, num movimento batizado de Jornada de Luta pela Democracia, composto por membros de sindicatos e de movimentos sociais afetos ao PT à espera da saída do antigo presidente. A apenas um quilómetro da sede da Justiça Federal do Paraná reuniu-se, por sua vez, o Movimento Curitiba contra a Corrupção, de apoio a Moro e contrário a Lula.

A audiência foi filmada, com uma câmara a focar diretamente Lula, mas as imagens só foram disponibiizadas após o longo depoimento já madrugada em Lisboa. O antigo presidente viajou de automóvel para Curitiba - em maio tinha-se deslocado de avião - ao fim da manhã, enquanto o juiz da Lava-Jato chegou, como num dia normal de trabalho, por volta das nove horas.

Horas antes de Lula depor, o antigo governador do estado do Rio de Janeiro Anthony Garotinho, do Partido da República, foi detido pela polícia enquanto apresentava o seu programa diário na Rádio Tupi. Garotinho é suspeito de comandar um esquema de fraude eleitoral na cidade de Campo de Goytacazes, oferecendo inscrições no programa social Cheque Cidadão, que dá 200 reais por mês aos beneficiários, em troca de votos nos seus candidatos municipais preferidos. Segundo a polícia federal, o político cumprirá a pena em casa, com pulseira eletrónica.

Na manhã de ontem, uma outra operação policial prendeu Wesley Batista, dono da JBS, maior empresa do setor de processamento de carnes do mundo e irmão de Joesley Batista, o empresário que gravou o presidente da República Michel Temer e que já estava detido desde a véspera. A acusação contra Wesley é a de que usou informações privilegiadas para lucrar no mercado financeiro na época da divulgação da escuta do irmão.

Em São Paulo

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