Kim manda eliminar irmão e passa ao nível seguinte na luta contra adversários

Kim Jong-un durante uma visita neste mês a uma escola para crianças órfãs na capital da Coreia do Norte. Está no poder desde 2011 e, segundo algumas estimativas, já mandou matar quase 300 altos quadros

Diplomatas de Pyongyang em Kuala Lumpur tentaram impedir realização de autópsia do cadáver de Kim Jong-nam. Regime tem longo historial na eliminação física de opositores e de quadros caídos em desgraça.

O assassínio de Kim Jong-nam, o meio-irmão do líder do regime da Coreia do Norte, coloca num novo patamar a política de eliminação de reais, potenciais ou imaginários adversários de Kim Jong-un, no poder em Pyongyang desde 2011.

Jong-nam foi atacado na segunda-feira numa área comercial do aeroporto de Kuala Lumpur, na Malásia, antes de embarcar num voo para Macau. Duas mulheres terão utilizado agulhas envenenadas ou um vaporizador para matar aquele que chegou a ser considerado possível sucessor do pai, Kim Jong-il, que dirigiu a Coreia do Norte de 1994 a 2011. Uma das mulheres foi detida ontem e as autoridades malaias procuram outros suspeitos. Na Coreia do Sul e nos Estados Unidos é convicção de que Jong-nam, de 45 anos, foi assassinado por ordem do seu meio-irmão, de 33 anos. Ambos são filhos de Kim Jong-il, mas de mães diferentes.

Um indicador do envolvimento da Coreia da Norte é o facto de diplomatas deste país terem tentado pressionar as autoridades malaias a não realizarem a autópsia do cadáver. O que foi recusado.

Pyongyang tem um longo historial de operações clandestinas no exterior para eliminar opositores e raptar civis sul-coreanos ou japoneses, em especial entre os anos 1960 e 1980. Num desses casos, o voo YS-11 da Korean Airlines em dezembro de 1969, das 50 pessoas raptadas, apenas foram 39 libertadas até hoje.

Internamente, têm-se sucedido purgas e eliminações físicas de pessoas vistas como ameaça para as sucessivas gerações da família Kim no poder desde a fundação do regime, em 1948. Logo em 1956, Kim Il-sung mandou prender e executar uma série de dirigentes que o criticavam por excessiva concentração de poder. Quando o seu filho, Kim Jong-il, nos anos 1970, foi designado sucessor, este manobrou para afastar o tio, Kim Youngjoo, considerado rival, assim como dois meios-irmãos, nascidos do segundo casamento de Il-sung, que foram exilados. O atual líder, Jong-un, não hesitou em mandar matar, em 2013, o tio por afinidade, Jang Song -thaek, considerado essencial na sua consolidação no poder.

Os acontecimentos em Kuala Lumpur colocam, contudo, num novo patamar a política de eliminação de adversários. Pela primeira vez, um elemento da família Kim, por laços biológicos, é eliminado fisicamente pelo regime. Notícias de que Kim Kyong-hui, tia de Jong-un e casada com Jang Song-thaek, teria sido morta após a execução do marido, nunca foram confirmadas e Pyongyang mantém referências ao seu nome em documentos oficiais. O que significa não ter caído em desgraça. Ao contrário de Kim Jong-nam que, em 2001, com a mulher e o filho, foi apanhado com passaporte falso a tentar entrar no Japão. Nesse ano passou a residir fora da Coreia do Norte.

Mas o dado central é o de que não se coibiu de criticar o meio-irmão quando este chegou ao poder e em ocasiões posteriores. Por exemplo, em 2010, afirmou que ele e o pai se tinham oposto "a uma terceira geração" Kim na liderança do país, mas "razões internas" terão levado Jong-il a "mudar de ideias". E quando Jong-un chegou ao poder em 2011, sugeriu que este "não iria durar muito" e advogou reformas económicas "como na China". No ano seguinte, Jong-un teria emitido uma "ordem de assassínio" para o meio-irmão, afirmou um deputado sul-coreano à Reuters, após uma sessão à porta fechada da comissão do Parlamento de Seul que acompanha as questões da Coreia do Norte.

Jong-nam residia em Macau com a segunda mulher, sob proteção das autoridades chinesas, segundo os serviços de informações sul-coreanos. A primeira mulher e o filho de Jong-nam vivem em Pequim.

O nível de ameaça representado pelo meio-irmão de Jong-un advém de transportar consigo o nome da família e de as opiniões que expressou sobre o regime o tornarem um possível candidato à sucessão, principalmente em caso de golpe de Estado. Por outro lado, alguns analistas defendem que Pequim consideraria Jong-nam alternativa plausível a um Jong-un que, desde a chegada ao poder, tem-se destacado pelo elevado número de execuções e o afastamento de pessoas em posições de responsabilidade, ao mesmo tempo que se multiplicam os sinais de descontentamento na elite e na sociedade. Desde 2012, mandou fuzilar quase 300 dirigentes ou quadros de organismos do Estado e do partido, segundo estimativa do Instituto para a Estratégia de Segurança Nacional da Coreia do Sul.

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