Jared: o genro discreto, rico e hiperinfluente que vai aconselhar Trump

Nomeado conselheiro presidencial, marido de Ivanka vai deixar negócios para evitar conflito de interesses. Nepotismo é outra suspeita.

Mal veio a público que Donald Trump, o presidente eleito dos EUA/sogro o ia nomear conselheiro da Casa Branca, Jared Kushner apressou-se a anunciar que vai vender grande parte das participações que detém em empresas de setores que vão da construção aos media. Uma atitude imitada ontem pela mulher, Ivanka. A filha mais velha de Trump vai deixar os cargos que ocupa nas empresas da família, inclusive a presidência do seu grupo de pronto-a-vestir. Mas uma vez que a parte de Jared passará para o irmão ou para um fundo gerido pela mãe, este anúncio pouco ou nada contribuiu para calar as suspeitas de conflito de interesse (e também de nepotismo) que a nomeação gerou.

No sábado, o New York Times noticiava que Kushner - cuja nomeação para conselheiro foi uma prenda de anos antecipada: fez ontem 36 anos - estava a negociar com a chinesa Anbang a restruturação da torre no número 666 da Quinta Avenida, que os Kushner detêm a metros da Trump Tower. Ontem, o jornal recordava que mesmo que Jared deixe os negócios familiares, continuará a ter de opinar, como conselheiro com a pasta do comércio, sobre as relações entre EUA e China.

Desde que foi eleito, a 8 de novembro, Trump tem alimentado tensões com Pequim, tendo, entre outros, atendido uma chamada da presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, e posto em causa a política de uma só China, seguida pelos Estados Unidos desde 1979.

Mas quem é Jared Kushner? Discreto, bem falante, pouco dado às luzes da ribalta, este jovem alto e esguio, que aparenta ser ainda mais jovem do que a idade que verdadeiramente tem, começou a campanha como o insignificante marido de Ivanka e surge agora como uma das vozes mais influentes junto do futuro presidente dos Estados Unidos. Pelo meio, é-lhe atribuída uma boa parte da responsabilidade pela estratégia que levou o milionário sogro à Casa Branca.

Nascido em Livingston, New Jersey, numa família abastada, o neto de sobreviventes do Holocausto que fugiram da Polónia durante a II Guerra Mundial e chegaram aos EUA em 1949, a história de Kushner tem muitas semelhanças com a de Trump. Tal como o sogro cedo ficou à frente do império imobiliário do pai. Uma fortuna pessoal que lhe permitiu, aos 25 anos, comprar o então muito prestigiado New York Observer e juntar os media aos setores de atividade do clã Kushner.

Judeu ortodoxo, Jared leva a religião muito a sério. Numa entrevista à revista Vogue, em 2015, Ivanka, que se converteu ao judaísmo antes de se casar em 2009, explicou que a família respeita o sabat, o descanso semanal dos judeus: "De sexta-feira a sábado não fazemos mais nada a não ser estar uns com os outros. Nem fazemos telefonemas", explicou a mãe de três filhos.

Calmo e ponderado, Jared usou a sua religião para sair em defesa de Trump quando este foi acusado de antissemitismo durante a campanha ao publicar uma foto da rival democrata Hillary Clinton ao lado de uma pilha de notas, do que parecia uma estrela de David e da frase: "A política mais corrupta de sempre." Num editorial no Observer, Jared garantiu: "As pessoas veem nele o que querem ver." O apreço de Jared por Trump encontra eco do lado do presidente eleito que não poupa elogios ao genro, afirmando que é "muito bom em política", apesar da falta de experiência nessa área. E em novembro chegou mesmo a afirmar ao New York Times que Jared é tão talentoso que pode "conseguir a paz no Médio Oriente".

O marido de Ivanka não escapa aos escândalos. A começar pela entrada na universidade de Harvard. No livro The Price of Admissions: How America"s Ruling Class Buys Its Way into Elite Colleges, Daniel Golden questiona como um aluno de notas baixas como Jared entrou numa universidade tão prestigiada. E revela que nesse ano, o pai, Charles Kushner, doou 2,5 milhões de dólares a Harvard. Bem como a Cornell e Princeton.

Apesar da fortuna que foi amealhando, Charles Kushner já teve problemas com a justiça, tendo sido condenado por evasão fiscal e manipulação de testemunhas. Na altura, o procurador-geral que o processou era Chris Christie. Um facto que talvez explique porque Jared Kushner é tido como o grande responsável pelo afastamento do agora governador de New Jersey que passara de adversário de Trump nas primárias republicanas a feroz apoiante do candidato. Terá sido o genro a convencer o milionário a escolher Mike Pence para vice em vez de Christie. Mais uma prova da sua influência.

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